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(Re) pensar as práticas de ensino em tempos de pandemia


Maria Paula Gonzalez


Fotografia de Andrey Grushnikov



As práticas do ensino referem-se a múltiplas temporalidades: estão relacionadas com a atenção às emergências imediatas, à capitalização de memórias e a antecipação de programas segundo Silvia Finocchio. No ensino, os sujeitos negociam permanentemente entre o que se impõe e o que se pratica assinala Diana Vidal. As práticas de ensino podem ser pensadas como práticas cotidianas, retomando o conceito de Michel De Certeau.


Há tempo que penso com essas ideias às práticas de ensino - particularmente no/para o ensino de história e na/para a formação de professores de história-. São ideias muito poderosas para mim. E hoje, neste contexto de isolamento social, preventivo e obrigatório na Argentina desde março; com universidades fechadas em suas sedes, mas abertas em seu trabalho, com aulas não presenciais ou na virtualidade (como quisermos chamá-las), essas ideias se tornam ainda mais poderosas.


Daí este texto, como um convite para colocar nossas práticas de ensino sob a lupa com intuito de (re) pensar sobre elas. As práticas daqueles que ensinamos. Não apenas daqueles que ensinam história (embora pense neles a partir daí), mas como um convite para aqueles que ensinam outras disciplinas ao nível superior. E também como um convite a pensar naquilo que se denomina “práticas” de formação de professores neste contexto.[1] Trazer para a superfície as práticas de ensino é uma (boa) oportunidade nesta (e desta) época.


Nunca foi tão verdadeiro que, como professores, vivemos múltiplas temporalidades.

O tempo dos sujeitos e das gerações que estão em uma sala de aula. O tempo dos espaços onde ensinamos. Os tempos das disciplinas -que mudam na sua permanência- e daquelas que aparecem enquanto outras se fundem ou se extinguem. Os tempos dos conteúdos que estão sendo reescritos. Os tempos (descompassados) do ensino e da aprendizagem. O tempo das materialidades que mudam lenta ou rapidamente, com maior ou menor fragilidade. Se alguma coisa ficou (mais) à vista nestes meses, foi que a materialidade (agora conectividade) é crucial para ensinar e aprender.


Os que trabalhamos na área de história falamos insistentemente sobre uma coisa: do tempo. Ou, melhor, dos tempos. Do significativo de ler os tempos. Ler aquelas diferentes temporalidades (todas misturadas e ao mesmo tempo) que fazem do presente o que é: herança e ruptura, invenção e inércia segundo Chartier.


E hoje, além de todos esses tempos, se acrescentam outras temporalidades. A interrupção do tempo que a pandemia nos impôs. O tempo lento do que sofremos e não acaba de acontecer. O tempo suspenso que quase não diferencia os dias. O tempo acelerado imposto pelas tecnologias de comunicação onde tudo é para "agora". O tempo sobrecarregado que o ensino não presencial traz. O tempo incerto de espera para voltar a "alguma" normalidade.


Nunca foi tão verdadeiro que capitalizamos memórias.

Sempre fazemos isso. Sempre fizemos isso na prática docente. E hoje, jogados/ lançados na virtualidade como espaço de ensino (sem tê-la escolhido, mas adotado), revisamos - talvez mais do que nunca - experiências anteriores das quais nos valemos. Próprias e de outros. Fizemos perguntas sobre o curso virtual que concluímos como alunos e aquele que ministramos em equipe. E desse duplo perfil permanente -aluno e professor- mais perguntas. O que funcionou para mim? Que não? O que repetiria? O que não proporia de novo? O que gostei e o que não gostei? O que (me) convocou? O que me moveu /comoveu?


Nunca foi tão verdadeiro que, na prática docente, atendemos emergências imediatas.

Sempre fizemos isso na simultaneidade, imprevisibilidade e incerteza das aulas nas salas "físicas". Mas também, neste "aqui e agora", a primeira urgência foi dar continuidade aos cursos para os quais - freneticamente - tínhamos que pensar inventar e ensaiar, não sem dúvidas, práticas renovadas. E aí, novamente, mais perguntas. Porque tínhamos sedimentações sucessivas do presencial mas agora não tivemos muito tempo para acumular e decantar. Então, como organizar o tempo? Como habitar o espaço “virtual”? Como nos conectar? Como apresentar os conteúdos? Como construir coletivamente o conhecimento em um contexto que nos coloca em um lugar tão solitário? Como reconverter aquela sala virtual que já tínhamos na nossa universidade, que conhecíamos e utilizávamos, mas que agora tinha que ser um espaço mais sistemático na ausência de uma sala de aula “analógica”, enfim, na ausência da sala de aula que conhecemos –com variantes- desde vários séculos atrás? Aquela sala de aula que foi inventada e conquistada politicamente...


Nunca foi tão verdadeiro que antecipamos programas.

Quem conhece o ensino não presencial ou virtual diz (porque acumulou experiências) que para essas propostas é necessário, sobretudo, tempo para a sua preparação. Nós não tivemos nesta vez. Nós não tínhamos planejado. A pandemia foi imprevisível (pelo menos para muitos de nós). Então agimos movidos pelo ritmo e pela incerteza. Que seriam quinze dias como no ano 2009 (você se lembra da gripe A?[2]) foi uma ilusão que rapidamente se desvaneceu entre estatísticas, mapas e histórias de outros colegas de outros hemisférios que - de alguma forma - quase falaram conosco desde o futuro.


Mas, além disso, as práticas de ensino antecipam os programas porque muitas vezes (arrisco dizer, na maioria dos casos) as disciplinas antecipam as normas. E, novamente, neste contexto - do meu ponto de vista - foi claramente assim. Antes de qualquer protocolo, orientação, norma ou lei, foram as práticas de ensino que responderam primeiro - para melhor ou para pior - do desafio.


E aí, também, a negociação entre o que se impõe e o que se pratica.

O que é imposto pela pandemia e o que se pratica na pré-pandemia e na pandemia (além de pensar na pós-pandemia). O que é imposto pelas estratégias que de um lugar de poder trazem regulações ou modelos. E o que se pratica a partir das táticas plurais e móveis que “inventam o cotidiano” segundo De Certeau. Aquelas táticas que não são necessariamente motivadas pela rejeição da norma, mas que produzem algo novo com seus próprios usos, com distorções e truques, cujo significado não é necessariamente a resistência, mas sim o uso, o gosto, a operacionalidade e a ocasião.


Em suma, as práticas de ensino como operações cotidianas.

Segundo De Certeau, as operações cotidianas têm aspectos estéticos, polêmicos e éticos. Estéticos, porque uma prática cotidiana abre seu próprio espaço dentro de uma ordem imposta. Polêmicos, porque essas práticas estão relacionadas a essa ordem apropriando-se de uma parte, editando à vontade, medindo forças com o que já está feito e organizado. Éticos, porque a prática cotidiana restaura com paciência e tenacidade um espaço de jogo, um intervalo de liberdade, uma resistência à imposição (de um modelo, de um sistema ou de uma ordem): saber fazer é percorrer distâncias, defender a autonomia de algo seu. Acho que todos esses traços são encontrados nas práticas de ensino de hoje (e também nas de ontem e provavelmente nas de amanhã).


Aqui estou/estamos: pensando nas práticas. Pensando nas práticas de ensino de História e nas práticas para a formação de professores de História neste contexto que vivemos (na sorte e no infortúnio). Estamos diante de um desafio sem precedentes. Muito para pensar e fazer.


Para encerrar, mais algumas ideias. Para mim, não se trata de "tudo isso veio para ficar". Com licença, mas eu recuso. Quero a sala de aula, o escritório, o corredor e o bar, enfim, quero os espaços de encontro onde possamos compartilhar, discutir e brigar. Esses lugares para sentir (se). Também é claro que algo (pouco ou muito) nós vamos aproveitar do que estamos fazendo hoje. E teremos que pensar sobre tudo isso, sobre todas essas práticas que estamos inventando e ensaiando hoje, e desejamos que continuem. Mas também voltaremos às práticas que conhecemos e consideramos úteis. E vamos até inventar mais algumas que ainda não imaginamos.


Parece que navegaremos em cenários combinados e duais, escalonados e distanciados por um tempo (pelo menos pelo que sabemos até aqui e hoje).

Notas


[1] Na Argentina, falamos de “as práticas” ou “a residência”. No Brasil, “estágio supervisionado” .

[2] No ano 2009, na Argentina, houve uma suspensão de quinze dias de aulas pela pandemia da gripe A -H1N1, mas não houve isolamento social preventivo e obrigatório.

#EnsinoDeHistória #PráticasCotidianas #EstágioSupervisionado #Pandemia

Referências


Chartier, Roger (2007). La historia o la lectura del tiempo. Barcelona: Gedisa

De Certeau, Michel (2007). La invención de lo cotidiano. Artes de hacer. Mexico: Universidad Iberoamericana.

Finocchio, Silvia (2011). “Los docentes, los saberes y la mutacion de la escuela”. En Finocchio, S. y Romero, N. (comps.), Saberes y prácticas escolares, pp. 175-199. Rosario: HomoSapiens.

Vidal, Diana (2005). Culturas escolares. Campinas, SP: Autores Asociados.


Maria Paula Gonzalez é pesquisadora-professora adjunta na área de História do Instituto do “Desarrollo Humano” da Universidade Nacional de General Sarmiento (UNGS). Coordena projetos de pesquisa sobre ensino de História. Coordena o Mestrado em História Contemporânea da UNGS e é pesquisadora do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas –CONICET.






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