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Juventudes negras na internet

youtubers e as contra narrativas sobre o racismo


Mônica Martins da Silva



Recentemente acessei uma publicação no twiter do influenciador digital Murilo Araújo, feita em 2018, com a indicação de uma thread de 33 jovens youtubers negros que, segundo o autor, vem produzindo novos conteúdos e difundindo outras narrativas na internet sobre o racismo. Ainda que eu já conhecesse alguns dos personagens difundidos pela lista, me surpreendi com o rápido crescimento desse tipo de conteúdo no Youtube e pela diversidade das narrativas produzidas. Dentre os youtubers que figuram na lista, podem ser encontrados alguns já conhecidos em outras mídias como Spartakus Santiago e Tia Má, assim como outros com bastante ressonância na própria internet como Gabi Oliveira, atualmente com 643 mil inscritos, abordando o racismo transversalmente a partir de temas do cotidiano e do seu estilo de vida. E também Nátaly Neri, atualmente com 749 mil inscritos, abordando temas como raça, gênero, sustentabilidade e beleza. A grande maioria dos autores são produtores culturais, jornalistas, educadores sociais, artistas e possuem canais considerados pequenos, com menos de 100 mil inscritos, e, em sua maioria, tratam o racismo interseccionado com as relações de gênero, sexualidade e beleza negra. Também podem ser encontrados outros enfoques como o de Ph Cortês que iniciou o seu canal no Youtube com 14 anos de idade, abordando questões raciais com ênfase na história de personagens negros no campo do entretenimento, das artes e da história. Há também a Família Quilombo que aborda o cotidiano de uma família negra, tratando de diversos temas entrelaçados à temática do racismo.


O acesso a essa publicação veio ao encontro de uma inquietação que me acompanha em meu trabalho de formação de professores de História, em disciplinas de Estágio Supervisionado, no qual priorizo a abordagem das relações étnico-raciais, especialmente na construção de projetos de ensino que tratam da história e das culturas afro-brasileiras e indígenas, com ênfase em uma formação antirracista e que sensibilize os estudantes a considerar essa temática como central em suas práticas docentes. O trabalho com essas temáticas tem sido uma escolha política, como forma de associar à formação de meus alunos, não apenas a discussão de alguns pressupostos teóricos e metodológicos que envolvem a formação de professores, mas também adicionar a dimensão axiológica como elemento fundamental desse processo, especialmente para o Ensino de História no Brasil, país que possui a segunda maior população negra do mundo e que, ao longo de séculos, vem enfrentando problemas muito graves decorrentes do racismo - e que foram agravados no contexto da pandemia do Covid-19 - como a desigualdade social, a pobreza, o encarceramento em massa de populações negras, o trabalho análogo ao de escravo, dentre outros temas que perpassam o cotidiano brasileiro. O desafio central desse trabalho tem sido conjugar a formação docente às demandas políticas do nosso tempo, elegendo o racismo como tema central para se debater a sociedade brasileira, articulando presente, passado e futuro, e também promovendo a formação de estudantes do ensino superior e da educação básica, comprometidos com a reflexão, a crítica e também com a transformação de ideias, valores e práticas sociais e políticas.


Nos últimos anos, iniciei uma pesquisa exploratória, ainda inconclusa, sobre narrativas e contranarrativas do racismo na internet, especialmente no Youtube, por observar que esse tem sido um espaço recorrente de expressão e difusão de ideias, também frequentemente utilizado pelos meus estudantes em suas propostas de Estágio Supervisionado. Essa escolha também decorre de uma percepção que o Youtube é uma plataforma online bastante utilizada pelos estudantes da educação básica, não só para entretenimento, como também para os estudos. Essa questão foi inclusive analisada por um dos grupos de alunos de Estágio em sua investigação sobre o cotidiano escolar, que identificou um grande número de estudantes que tinham como hábito seguir algum influenciador digital - nesse caso nomeados de youtubers, em sua maioria jovens, brancos, de classe média, com valores heteronormativos - ou mesmo algum canal destinado a temas específicos que são abordados no contexto escolar (ROSA, SEDREZ, SERAFIM, 2016). É certo que nos últimos anos algumas mudanças importantes já aconteceram, com o surgimento e dinamização de redes sociais, como o Instagram e o twitter, ou mesmo de aplicativos como Whatsapp, Snapchat e Tik Tok que concorrem entre os jovens na divulgação de conteúdos e difusão de ideias, mas o Youtube continua sendo importante, dada a sua capacidade de armazenamento e difusão de diversos tipos de materiais.


Nesse contexto, reflito sobre como a internet, marcadamente afetada pelo racismo algorítmico (SILVA, 2019) também se tornou um espaço de produção de narrativas contra hegemônicas, dando espaço para a construção de subjetividades descomprometidas com padrões, convenções e normatividades, assim como pode-se considerar o seu potencial para visibilidade de grupos ou pessoas que anteriormente não teriam o mesmo poder de ressonância. Considerando essas questões, me proponho a problematizar o tema, apresentando outras narrativas com destaque para jovens youtubers negros, considerando suas próprias perspectivas para o trabalho de discussão do racismo, dentre outros temas que envolvem a população jovem e negra no Brasil. Essa breve incursão nesse universo digital me possibilita refletir sobre o potencial dos conteúdos digitais para o Ensino de História e as formas de apropriação crítica desse material, considerando o universo das culturas juvenis.


No contexto de orientação das atividades do Estágio Supervisionado, um dos meus grandes incômodos é a escolha que geralmente meus alunos fazem, nos seus projetos de ensino e planos de aula, por temas ou abordagens que enfatizam aspectos da violência, da opressão e da estigmatização a que estiveram submetidos os povos africanos e afrodescendentes, que foram ou não escravizados. Esse incômodo ocorre não porque considere que esses temas não sejam relevantes, ou mesmo por discordar que sejam aspectos que marcaram o passado escravista. Pelo contrário, compreendo que não devemos “jogar o bebê com a água do banho” como muitas vezes comento com os meus alunos, mas ao abordar a história dos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas, no contexto atual, considero que, como professores, devemos ter ciência de qual é o nosso compromisso frente a um passado que foi construído, estigmatizando esses povos e construindo imagens negativas que associam a África e os povos afro-brasileiros, mas também indígenas, povos afro-latinos, afro-americanos, dentre outros, diretamente associados à pobreza, à violência, às guerras, e ao sofrimento.


As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, documento aprovado em 2004, em um contexto de expansão das políticas de ação afirmativa no Brasil, orienta a adoção de políticas educacionais e de estratégias pedagógicas de valorização da diversidade, a fim de superar a desigualdade étnico-racial presente na educação escolar brasileira, nos diferentes níveis de ensino. Desde a sua publicação, o documento já foi analisado e problematizado por diferentes autores (ABREU e MATTOS, 2008) quanto a sua natureza política, polifônica e de seu papel de combate ao racismo na sociedade brasileira. Um dos seus destaques são as diferentes propostas de se abordar tematicamente a questão e tratar das relações étnico-raciais na escola, nos instigando ao trabalho de positivação da história desses povos, enfatizando a atuação de negros e negras em diferentes áreas do conhecimento, de atuação profissional, de criação tecnológica e artística e de luta social.


Ao introduzir as narrativas de jovens negros no youtube, nas aulas de Estágio, o meu objetivo é valorizar a riqueza de conteúdos que podem emergir desses vídeos, instigando os alunos a ver esse material como expressão de autoria, empoderamento, autonomia e protagonismo de jovens negros que falam por si, sobre temas que vão muito além das temáticas do preconceito racial, do racismo e da discriminação, nas abordagens já conhecidas e interrelacionadas à pobreza, a precarização da vida e trabalho, a violência policial e ao encarceramento em massa de pretos e pardos no Brasil. Nessas narrativas também emergem assuntos como a beleza negra, moda, família, relações de gênero, “colorismo”, racismo reverso, racismo estrutural, crítica à branquitude, entrelaçando humor, crítica social e perspectivas de futuro, possibilitando outras interseccionalidades nessa reflexão. São também exemplos de biografias e trajetórias negras plurais que indicam diferentes modos de viver e de estar no mundo, assim como de existir e resistir em um mundo em que o racismo persiste como uma prática arraigada nas relações sociais.


Ao trabalhar narrativas de jovens negros no youtube como conteúdo, linguagem e também objeto de discussão sobre representatividade negra na discussão de temas relevantes para o presente e o passado, compreendo que podemos dar mais alguns passos em direção à árdua tarefa de implementar a legislação que trata da Educação das relações étnico raciais no Brasil. Essa que vem sendo objeto de muitas pesquisas que têm debatido sobre as conquistas obtidas nos últimos anos (PEREIRA, 2011; GOMES, 2012; JANZ y CERRI, 2018), mas também sobre retrocessos, como o desmonte de políticas públicas essenciais para a sua difusão e coesão, a aprovação de diretrizes curriculares prescritivas e descomprometidas com a questão étnico racial, assim como a permanência de abordagens eurocêntricas em materiais didáticos, cursos de formação continuada e no conjunto das práticas cotidianas das escolas.


Reconhecer nas narrativas desses jovens negros outras formas de se enfrentar o racismo é também um modo de ousar fazer diferente, subvertendo o convencional e convidando os alunos a olhar a história e a sua própria formação a partir das bordas e das margens, fazendo emergir narrativas de esperança e de crença em projetos de futuro sem discriminação, preconceito e subalternização racial.



#Ensino de História #racismo #youtube #jovens negros #educação das relações étnico-raciais


Referências


ALMEIDA, Marco Antonio Bettine de y SANCHEZ, Livia Pizauro (2017). Implementação da Lei 10.639/2003 – competências, habilidades e pesquisas para a transformação social. Pro.posicões. 28, 1 (82), 55-80.

JANZ, Rubia Caroline y CERRI, Luis Fernando. Treze anos após a lei n. 10.639/03: O que os Estudantes sabem sobre a História da África? (Ponta Grossa, 2015). Afro-Ásia, 57, 187-211.

ABREU, Martha e MATTOS, Hebe. (2008) Em torno das “Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira”: uma conversa com historiadores. Estudos Históricos. 21 (41), 5-20.

PEREIRA, Júnia Sales (2011) Diálogos sobre o Exercício da Docência - recepção das leis 10.639/03 e 11.645/08. Revista Educação e Realidade, 36, (1), 147-172.

ROSA, Andréia Silvana da; SEDREZ, Rafael; SERAFIM, Tamiris. Os Perigos de uma única História: Reflexões sobre Experiências de Planejamento e Prática Pedagógica no Ensino de História dos Povos Africanos e Afrodescendentes. Relatório de Estágio Supervisionado [acesso restrito] Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Humanas, Florianópolis, 2016.

SILVA, Tarcízio. Racismo Algorítmico em Plataformas Digitais: microagressões e discriminação em código. VI Simpósio Internacional Lavits 2019. Assimetrias e (in) visibilidades: Vigilância, Gênero e Raça. Salvador-BA. Disponível em: https://lavits.org/wp-content/uploads/2019/12/Silva-2019-LAVITSS.pdf. Acesso em 11 de junho de 2020.


Mônica Martins da Silva é professora da Universidade Federal de Santa Catarina. Atua na área de Ensino de História do departamento de Metodologia de Ensino e do Programa de Pós Graduação em Ensino de História, nos quais desenvolve atividades envolvendo temas como Formação de Professores, Patrimônio Cultural e Educação das relações étnico-raciais.

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