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Mad Men: a cor da mulher trabalhadora


Débora Marinho de Moraes


Primeira Conferência da Mulher Negra, em Connecticut College, c.1969 | Wikimedia Commons


O feminismo é uma urgência no mundo. [...] Mas nem todo feminismo liberta, emancipa, acolhe o conjunto de mulheres que carregam tantas dores nas costas. Taliria Petrone.

Você provavelmente já ouviu falar sobre as ondas do feminismo. Normalmente, o movimento é dividido em quatro, sendo eles: a luta pela educação, para exercer uma profissão e ganhar o próprio dinheiro; o direito de votar; o direito sobre o corpo; e, nos dias de hoje, o feminismo combativo que é marcado pelo anticapitalismo. Hoje, vemos certa negação a esse tipo de leitura. Entendo, assim como outras colegas, que colocar todo um movimento de mulheres heterogêneas em caixas que dividem tudo como 1°, 2°, 3° e 4° onda é simplificar demais. No entanto, entendo o apelo didático: organizar de forma a permitir uma compreensão fácil.


Quando se começa a entender o movimento feminista, essa divisão é um bom auxílio: épocas diferentes têm demandas sociais e políticas diferentes. Podemos, então, dar um segundo passo e aprofundar percebendo algumas complexidades, por exemplo quando as mulheres brancas começam a lutar pelo direito de trabalhar fora, as mulheres negras já trabalhavam há tempos - inclusive para essas mesmas mulheres brancas. As sufragistas seguiram seus antecedentes abolicionistas, ao demandar voto universal, mas após a Guerra Civil dos Estados Unidos, quando homens negros passaram a ter direito ao voto e elas não, elas se aliaram aos ideias da supremacia branca.


Vemos o reflexo dessas escolhas das feministas brancas quando o feminismo liberal se tornou o que “pegou”, segundo bell hooks. Para o feminismo liberal o ponto central é que as mulheres ocupem os mesmos espaços que os homens na sociedade. Devido às crises econômicas, essa corrente feminista teve aceitação social e a de igualdade de gênero se resumiu à presença no mercado de trabalho. Essa ideia foi aceita pela mídia e pela cultura de massa e chega nos dias de hoje com a ideia de “seja uma CEO”; como se a solução para a questão de desigualdade de gênero se reduzisse a ter uma mulher em um cargo de poder ou de chefia, seja como dona ou gestora de uma empresa, seja como figura política. Mas se a mulher rica ou de classe média trabalha e almeja um cargo de liderança, ela contrata uma mulher mais pobre para cuidar da sua casa, esta última permanece presa na base da sociedade. Segundo hooks, esse tipo de esforço feminista liberal compactua com as práticas patriarcais da supremacia branca e capitalista e recebe aval da mesma, já que não engloba em sua luta pessoas não brancas, de forma que elas não tenham o mesmo acesso econômico.


Tudo isso me levou a refletir quando me deparei com o episódio 4 da 5° temporada de Mad Men. A série estadunidense dos anos de 2007, retrata os Estados Unidos pós guerra construindo o conhecido “american way of life” (estilo de vida americano). Na série cheia de homens poderosos, têm mulheres que tentam conquistar espaço e respeito no mercado de trabalho. Uma das personagens principais é a Peggy que consegue subir de cargo e ocupar uma função até então só exercida por homens. No episódio referido, a única secretária negra Dawn vai passar a noite na casa da Peggy e elas estão na mesma sintonia: são duas mulheres lutando por respeito num espaço masculino e que querem manter seu emprego. Para ambas é importante aquela oportunidade de fazer uma carreira profissional. Depois do momento de cumplicidade, no entanto, Peggy antes de ir para seu quarto e deixar Dawn sozinha na sala, olha para sua bolsa com todo salário do mês que está sobre a mesa, e, num reflexo, abaixa-se para defendê-la de Dawn. No último momento, Peggy desiste e tenta disfarçar, mas Dawn já conhece esse tipo de coisa: ela sabia o que Peggy estava sentindo. Nessa cena uma coisa fica clara: a cumplicidade das duas existe só até um ponto. As duas são mulheres, o que faz com que a sociedade as trate de uma certa forma, mas quando o assunto é a cor da pele, a sociedade dá tratamento diferenciado para cada uma delas. Apesar de um dia as mulheres brancas já terem se comparado com os negros escravizados, suas posições são bem diferentes ante a sociedade.


No restante da série, não há muito sobre a condição da mulher negra. Recordemos que a série se passa no final dos anos 1950 e vai até os anos 1970, perpassando pela luta pelos direitos civis. O roteiro, no entanto, prefere manter seu foco dentro do escritório de publicidade no qual nossos personagens mais interagem. Eventos como o protesto ocorrido em Chicago em 1968 e seus desdobramentos são sempre notícias de TV ou debates de posicionamentos de alguns personagens sobre aprovação ou não da Guerra do Vietnã. O autor da série preferiu que os temas com mais teor político fossem abordados de forma discreta, como a falta de diálogo entre os trabalhadores brancos do escritórios e os negros, que em sua maioria são ascensorista e faxineiros, assim como empregadas domésticas nas casas das madames brancas.


Ainda sobre a carreira profissional das duas mulheres que aparentemente estavam no mesmo barco quando enfrentavam a falta de espaço para as mulheres no mercado de trabalho, a Peggy consegue ascender para posições cada vez mais altas, além de ser um personagem bastante aprofundado na série. Por outro lado, Dawn passa toda a série como uma secretária negra que não pode ser demitida por questões legais que a protegem de alguma forma. Ela não é complexificada como personagem, assim como não é usada pelo roteiro para conhecermos mais sobre a vida das mulheres negras ou mesmo dos negros em geral numa época de tantas lutas e transformações.


O feminismo liberal não preza pela liberdade de todas as mulheres, pois ainda está vestido com os preconceitos da sociedade supremacista branca e tomado pela visão de que o capitalismo pode oferecer liberdade para todos. É importante ressaltar que o liberalismo, no geral, usa falsas afirmações de que se almeja uma igualdade entre todos, com direitos iguais, não importando quem você seja. O que vemos na realidade é a negação de espaços para certos tipos de pessoas, a depender de sua cor da pele, lugar de moradia, gênero, ou sexualidade. Apesar dessa fachada de igualdade, quanto mais essas mulheres alcançavam sucesso econômico em relação aos homens da sua classe, mais as discussões feministas de classe deixaram de ser pauta. Hoje, há uma nova movimentação dentro do feminismo, a “nova onda de ativismo combativo”, que entende que um feminismo que só lute pela liberdade de uma pequena parcela da população não é um feminismo real. Por isso é necessária uma luta pela liberdade dos 99%. Na sociedade capitalista tudo se resume à geração de lucro, por isso em tal estrutura há pouca capacidade de gerar

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Referências


ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.

hooks, bell. O Feminismo é para todo mundo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.


Débora Marinho é historiadora, feminista e amante da sétima arte.

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