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Livro e leitura no ato de ler/escrever

Das camadas populares pronunciar o mundo e a palavra


Ady Canário


Foto arquivo pessoal da autora autorizada para publicação. Fotografia da minha mãe, Antonia Canário, mulher de camadas populares, homenagem a essa leitora de 86 anos, exemplo de leitora, apesar dos obstáculos da vida.



Na semana do Dia Mundial do Livro, comemorado em 23 de abril, veio à tona o debate sobre a taxação do livro em 12% sob o discurso de que somente as pessoas de alta renda são consumidores. Isso mostra um retrocesso no acesso ao livro e a tentativa de retirada de direitos. Associações, instituições e entidades relacionadas à promoção da leitura, especialmente da educação, lançaram manifesto defendendo a imunidade de tributos do livro, política que já existe no Brasil desde 1946.


Lembramos Paulo Freire em sua obra “A importância do ato de ler: em três artigos que se completam” (2006, p. 29): “A leitura do mundo e a leitura da palavra estão dinamicamente juntas”. Obviamente, o gosto de ler não está apenas nos livros, vai para além dele, contudo o livro tem um papel fundamental no sistema e na formação educacional, sobretudo pela defesa da democratização do seu acesso e na função social que o livro exerce para a leitura e a sua existência para nós leitores/as.


Dados, como da pesquisa Retratos da Leitura (2019-2020), revelam que 27 milhões de leitores/as das classes C, D e E consomem livros. Caso o aumento do livro venha acontecer irá prejudicar, sem dúvidas, a essa população de baixa renda para a qual o livro é uma necessidade. São esses leitores/as inseridos em comunidades populares e culturais em seus diversos contextos, seja na família, igreja, trabalho, mídias e escolas, que precisam ser incluídos por meio da leitura e do livro. Os dados da pesquisa estão disponíveis neste link.


Obviamente, a inclusão social pela leitura envolve diversos princípios e procedimentos num amplo processo que compreende a leitura em suas dimensões sociais, culturais, econômicas, emocionais, sensoriais, intelectuais, linguísticas e em múltiplos olhares, já aponta Maria Helena Martins, em sua obra, “O que é leitura” (2006). Assim, livro e leitura são primordiais no ler e no escrever para a inclusão social de leitores e escritores populares. E isso depende do acesso ao livro, literatura e biblioteca em diferentes contextos. A figura abaixo ilustra as esferas sociais de atividade social por meio das quais o livro e a leitura exercem papel fundamental:


Figura: elaborada pela autora com base em Roxo (2009, p.110)



São nessas esferas que as classes populares atuam superando obstáculos que lhe são impostos, para que possam ler e terem acesso ao livro. Podemos dizer que, o livro, a leitura e a inclusão no sentido amplo, contribuem para práticas de letramentos. Tais letramentos no plural, como sendo “um conjunto muito diversificado de prática sociais situadas que envolvem sistemas de signos, como a escrita ou outras modalidades de linguagem, para gerar sentidos”, conforme nos diz Rojo (2009, p. 10), na obra “Letramentos múltiplos, escola e inclusão social”.


Nesse debate ressaltamos a importância do livro e da leitura como direitos para todas as áreas. Dizer não à taxação do livro é uma forma de homenagear o livro, a leitura e, acima de tudo, é um modo de resistência de leitores/as das camadas populares.

#Leitura #Livro #InclusãoSocial


Ady Canário é graduada em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte(UERN), Mestra e Doutora em Estudos da Linguagem, com área de concentração em Linguística Aplicada, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atualmente é professora do Departamento de Ciências Humanas da UFERSA.




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