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Teoria da História, nosso labirinto



Helena Miranda Mollo


Foto de Martin Péchy | Pexels


Os primeiros momentos da aula de Introdução ao Estudo da História guardam surpresas para docentes e discentes. Essa disciplina, que está, em geral, presente na grade curricular do primeiro período dos cursos de graduação em História, recebe os e as iniciantes na formação e apresenta uma parte do campo que lhes era antes completamente desconhecida. O estranhamento dos alunos e alunas em relação aos conceitos em História parece que pouco ou nada se repete em outros campos, pois, até àquele momento de encontro com Introdução ninguém, turma alguma, apresenta um estranhamento em falar ou tratar do tempo nas aulas de física ou química. Não se trata de um estranho total, mas de um estranho específico, um estranho que esteve sempre próximo e nunca visto. Passado, presente e futuro são tão naturais quanto qualquer fenômeno visto no campo da biologia, e um certo receio do labirinto começa a tomar conta dos rostos dos alunos e das alunas.


Ao se começar a pensar com esses e essas iniciantes como se forja o tempo histórico, e na tentativa de lançar um fio em direção a cada mão nas salas de Introdução ao Estudo da História, a memória é construída como um esboço da relação entre passado e presente. Aparece, assim, mais uma faceta do estranhamento, pois, em primeiro plano, para aqueles e aquelas iniciantes esse termo era mais presente nas aulas de biologia ou nas de literatura, e por muito tempo tangenciava a história. A partir dos últimos anos da segunda parte do ensino fundamental, a noção de memória coletiva e patrimônio vão ganhando terreno, mas o tempo diminuto, o conteúdo e a falta de lastro na cultura histórica impedem, muitas vezes, uma consolidação da noção. O consumo da história fora da educação formal corre, muitas vezes, em direção contrária e disputa espaços com a que é trabalhada em sala de aula.


A fragmentação, a disputa de espaços e narrativas sobre a história interferem na elaboração que os e as estudantes fazem do campo da história e chegam com essas linhas cortadas ao curso de graduação que escolhem. Assim, uma das primeiras surpresas, para esses e essas iniciantes, consiste no objeto principal de Introdução ao Estudo da História: uma apresentação da parte conceitual do campo, a construção de suas bases epistêmicas, seus termos-chave, como o conceito de tempo, o de espaço e seus desmembramentos e conceitos correlatos. Surpreendem-se que a história tem história. Dizem que não vão aguentar.


Como se elabora o tempo histórico? Já acostumados e acostumadas com o fato de que existe um tempo próprio da história, ainda ligam com muita força esse tempo aos marcadores das datas e seus entornos. Mas o que está atrás dessas datas para além de um conjunto de ações imediatas? Como se constrói o tempo da historiografia? Como a operação historiográfica se dá? Tais problemas são o início de um extenso fio que traz mais e mais problemas que devemos em nossas salas de aula, na formação de historiadores e professores, provocar: como lidamos com a construção do pensamento histórico de nossos alunos, no ensino básico? Como garantimos um direito à História? Como promovemos um pensamento que possa ver o tempo como estrutura e não como uma circunstância alheia aos acontecimentos ou simplesmente uma espécie de palco, como é comum ouvirmos.

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Helena Miranda Mollo é historiadora e professora da área de Teoria e História da Historiografia do Departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

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