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Temporalidade da luta ou a potência de uma operação historiográfica feminista decolonial

Maria da Glória de Oliveira


Rosana Paulino, página do livro HISTÓRIA NATURAL?, 2016 (Reprodução/Detalhe)


A falácia androcêntrica, que é incorporada em todos os constructos mentais da civilização ocidental, não pode ser retificada apenas com a "adição de mulheres". Gerda Lerner

No prefácio à edição brasileira de Calibã e a bruxa, Silvia Federici apresenta os resultados de uma pesquisa de três décadas, explicitamente concebida como contribuição para o movimento de libertação das mulheres. Seu interesse no tema clássico da historiografia marxista - a transição do feudalismo para o capitalismo – nasceu no contexto do feminismo norte-americano dos anos de 1970, momento em que os debates em torno das origens da desigualdade das mulheres combinavam-se ao início dos processos de apropriação das pautas de emancipação feminina pelos projetos políticos neoliberais. Em contraponto à ortodoxia marxista que explica a subordinação feminina por sua exclusão das relações de trabalho capitalistas, Federici argumenta como a caça e execução de centenas de milhares de bruxas no começo da era Moderna, assim como o tráfico de escravos e os cercamentos, foram fenômenos históricos cruciais da acumulação de capital e da formação do proletariado, na Europa e no Novo mundo. Como lição política fundamental, Calibã e a bruxa demonstra como o sistema capitalista permanece historicamente fundado no racismo e no sexismo, na medida em que dissimula as contradições imbricadas nas relações sociais, “difamando a natureza daqueles a quem explora: mulheres, sujeitos coloniais, afrodescendentes e, mais recentemente, imigrantes deslocados pela globalização”.


A categoria mulheres, para Federici, remete não somente a uma história oculta que necessita se fazer visível, mas significa também “uma forma particular de exploração e, portanto, uma perspectiva especial a partir da qual se deve reconsiderar a história das relações capitalistas”. Isso porque a transição para o capitalismo marcou o momento de redefinição da divisão do trabalho produtivo e reprodutivo e, por conseguinte, dos papéis sexuais de homens e mulheres, realizada com a máxima violência e intervenção estatal. Longe de se apoiar na usual dicotomia entre gênero e classe, a pesquisadora italiana mobiliza dois personagens shakespearianos como alegorias centrais da sua análise: por um lado, Calibã, o nativo selvagem escravizado por Próspero, ressignificado pelo pensamento pós-colonial caribenho e latino-americano como “rebelde anticolonial” e mobilizado por Federici como metáfora da resistência à lógica do capitalismo. De outro, a figura da bruxa, que é também “a herege, a curandeira, a esposa desobediente, a mulher que ousa viver só, a mulher obeah que envenena a comida do senhor”, originalmente a personagem Sycorax, secundária em A tempestade (e que, diferentemente de Calibã, permaneceu invisível no imaginário revolucionário latino-americano), assinalaria a encarnação de um mundo de sujeitos femininos que o capitalismo precisou destruir (Federici, 2017).


Há um diálogo possível entre a reescrita feminista da história do capitalismo de Federici e o feminismo decolonial da filósofa Maria Lugones. A expressão é título do artigo influente, originalmente publicado na revista Hypatia, em 2010, e designa o sistema moderno/colonial de gênero. A partir do conceito de colonialidade do poder, formulado por Aníbal Quijano para descrever as formas específicas de dominação e a exploração coloniais na constituição do sistema de poder mundial capitalista, Lugones (2020) sustenta que o colonialismo moderno se apoia não apenas em uma suposta classificação racial, mas implica o controle imposto sobre o sexo, as subjetividades, a autoridade e o conhecimento. Além de ampliar a noção do sociólogo peruano, o feminismo decolonial também é tributário da posição da teórica africana Oyeronke Qyewùmí (1997), sustentando que o colonialismo moderno constrói e impõe, de modo sistêmico, tanto a categoria de raça quanto a binaridade de gênero, estabelecendo uma clara hierarquia entre ambos.


Mantidas as especificidades dos trabalhos das autoras, na leitura cruzada de Federici e de Lugones, identifico algumas questões iniciais em torno de uma operação historiográfica feminista decolonial a serem desenvolvidas em reflexões futuras: o que significa investigar e escrever a história sob uma perspectiva feminista? Quais seriam os pressupostos de uma prática de reescrita histórica decolonial, sob os efeitos persistentes da força homogeneizadora dos regimes modernos de historicidade frente à diferença e ao descompasso temporal das experiências periféricas localizadas? Consistiria, simplesmente, em “adicionar” novos sujeitos, multiplicar objetos e sincronizá-los em uma temporalidade histórica uniforme, segundo os protocolos da historiografia disciplinada, para atender demandas coletivas específicas de representação do passado e do presente, seguindo o adágio “a cada um a sua história ou a sua memória”? Ao acrescentar à historiografia o qualificativo de feminista decolonial, isso demarcaria um lugar de enunciação, um ponto de vista ou perspectiva particular, entre outras, de se fazer história? Qual seria o lugar dessa reescrita, usualmente marcada pelo estigma da alteridade e pela usual condição suplementar dentro do território vasto e múltiplo da história social?


Uma operação historiográfica feminista decolonial parece ser um caso exemplar do jogo da diferença que se estabelece dentro dos saberes sobre um Outro a que se referiu Michel de Certeau, assim como dos dilemas, assinalados por Reinhart Koselleck, para a superação dos impasses abertos na modernidade em torno do problema da temporalização das perspectivas de apreensão da experiência da história. O contato com a historiografia ocidental moderna e disciplinada nos habituou ao território vasto e múltiplo das histórias de..., capaz de abrigar variados objetos, espaços e durações temporais, a partir de uma operação narrativa na qual todos os eventos, por mais díspares que possam parecer, adquirem inteligibilidade histórica plena quando sincronizados em uma unívoca sucessão contínua, desdobrada sobre um plano temporal vazio e homogêneo (Jordheim, 2014, p. 511). Foi precisamente este o pressuposto de sincronização que alimentou as pretensões da história em se constituir como código de representação dos passados não ocidentais e de todas as formas de contemporaneidade do não contemporâneo. Dentro de uma lógica similar, talvez possamos compreender as razões pelas quais não obstante a fecundidade robusta da história social das mulheres que, ao longo do século passado, manteve-se ciosa em dar visibilidade a sujeitos subalternos, a historiografia de viés explicitamente feminista ainda permanece submetida às suspeitas de militância e de parcialidade.


Seria importante considerar, ademais, a concepção de história e de temporalidade histórica que orienta a própria historiografia dos feminismos e os modos como se constroem as memórias e as narrativas sobre as experiências históricas das mulheres subalternas. Recentemente, no livro Feminism, time, and nonlinear history, Victoria Browne argumentou que o conceito de tempo histórico permanece vago e inalterado dentro da historiografia feminista, o que promoveria o apagamento das disputas em torno das políticas do tempo dentro do próprio movimento. Para escapar das armadilhas de uma ordem temporal totalizadora implícita, por exemplo, no modelo hegemônico da narrativa do movimento feminista em ondas sucessivas, Browne propõe a noção de politemporalidade, cujo pressuposto seria o de que muitos passados possíveis se ocultam em nossos presentes, seja como espectros do que já foi, seja como imaginação do que poderia ter sido, daí a ênfase no caráter contingente das políticas do tempo. “Não podemos presumir”, afirma a filósofa, “que uma determinada linha do tempo ou marco cronológico sejam necessariamente significativos para todos, que certo tipo de estrutura narrativa seja mutuamente inteligível ou universalmente adequado, que todas as gerações vivam sob as mesmas lógicas ou padrões temporais ou que todos sejam orientados e afetados pelos rastros do passado feminista da mesma maneira” (Browne, 2014, p. 145). O argumento se aproxima do que Chandra Mohanty chamou de temporalidade da luta, uma temporalidade que se torna objeto de disputa e de ressignificação, posto que desafia a lógica das origens e das continuidades teleológicas e, sobretudo o princípio da ordem temporal idêntica e homogênea dos processos de sincronização (Mohanty, 2003).


Menos do que respostas a esse conjunto de questões, o desafio central aqui está em potencializar teorizações em torno de uma operação historiográfica feminista decolonial que não se conforme em sincronizar temporalmente sujeitos e objetos múltiplos ou que, pelo menos, esteja mais ciente dos artifícios epistêmicos e das implicações políticas das construções narrativas e das sintetizações integradoras. Para tanto, talvez seja necessário tornar minimante problemáticas as premissas do historicismo que fundamentam as práticas disciplinadas da história para reivindicar outras formas de imaginação de experiência temporal (Añon e Rufer, 2018, p. 117). E, de imediato, uma imaginação histórica feminista - sobretudo dos feminismos periféricos não brancos – exigiria a contestação da temporalidade homogênea da política e do Estado (nos moldes da reflexão crítica de Lugones), e da própria evolução do capitalismo (a exemplo do que faz Silvia Federici). Afinal, como bem observou Gerda Lerner, no monumental estudo sobre a formação histórica do patriarcado, a falácia androcêntrica e, podemos acrescentar, colonial, não pode ser ultrapassada por uma simples política de adições.

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Referências


AÑON, Valeria e RUFER, Mario. Lo colonial como silencio, la conquista como tabú: reflexiones en tiempo presente. Tabula Rasa, n. 29, 2018, p. 117.

BROWNE, Victoria. Feminism, time, and nonlinear History. London: Palgrave MacMillan, 2014.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres corpo e acumulação primitiva. Tradução Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.

JORDHEIM, Helge. Multiple times and the work of synchronization. History and Theory, 53, December 2014, pp. 498-518.

LERNER, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. Tradução Luiza Sellera. São Paulo: Cultrix, 2019.

LUGONES, Maria. Rumo a um feminismo decolonial. In: HOLLANDA, Heloísa B. (org.) Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020, pp. 356-377.

MOHANTY, Chandra. Feminism without borders: decolonizing theory, practicing solidarity. Durham/ New York: Duke University Press, 2003.

QYEWÙMÍ, Oyeronke. The invention of woman: making an African sense of Western gender discourses. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1997.


Maria da Glória de Oliveira é professora pesquisadora de História da Historiografia, Teoria da História / Departamento de História / Universidade Federal Rural do RJ.