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Tempo, modos de usar


Helena Mollo



Esperar horas a fio e então desvencilhar-se das coisas tecidas na espera dos ponteiros do relógio cada um mais lento que o outro dos pelo menos dez cigarros das poltronas de mogno uma delas vazia (Ana Martins Marques, O livro das semelhanças)

Um conjunto de saberes acumulados significou uma forma renovada de se entender o tempo e o céu que nos abriga, e pudemos saber que o que vemos, quando olhamos o céu, é um lastro de existências. Os pontos luminosos, distantes de nós em anos-luz, existem no tempo, e nos permitem ver, em nosso presente, um momento qualquer do passado.


Pensando na relação entre o tempo, a linguagem e as coisas, abri o índice remissivo de um livro: Esperança de Pandora, de Bruno Latour. Fui em busca do tempo e não encontrei. Estranhei um pouco, pois minha expectativa era a de que um autor, preocupado com os fenômenos da vida contemporânea como ele, não se furtaria ao uso desse termo. Não satisfeita, procurei por termos muito comuns (quem sabe?) associados ao tempo: calendário, relógio, horas, linhas. Acabei convencida de que seria muito banal. Quem sabe o já usual Kronos? Ali não encontrei essa grafia. Refinada a busca, encontro o tempo através de formas de temporalidade, e não pelo seu termo de superfície, aquele fácil de colher à primeira vista, simplesmente tempo, hora ou calendário. O tempo, a estrutura, aparecia sob a forma de “Big Bang”, “cosmologia”, “Cosmo”, ou as formas já vistas sob a ótica mais específica da temporalidade histórica: “historicidade”, “contexto”. Ou as formas híbridas, que transitam por vários campos de conhecimento, como “causalidade” e “fermentação”. E ainda os nomes, que trazem camadas de tempo e cruzamentos de campos e culturas: “Ariadne”, “Dédalo” e “Darwin”.


A partir do índice remissivo, pode-se ter uma pista sobre o alcance das ideias contidas no livro e das temporalidades com que Latour trabalha, perspectivas da multiplicidade de fios que puxa, ora da filosofia, ora da antropologia, e algumas vezes da historiografia, geralmente vista pela nomeação de um evento ou pela forma como um nome (Darwin, por exemplo) pode chegar a sistematizar uma ruptura.


Mas agora a fuga do/ao termo tempo interessa, e assim nos afastamos do texto latouriano.


As coisas, objetos fabricados pelas pessoas ao longo de suas existências, podem conduzir os sujeitos a um outro modelo de tempo, o da subjetividade, do acúmulo afetivo e do conhecimento individual, da retenção e da reprodução, em que o sujeito experimenta a fabricação do mundo através de inúmeros artefatos, sobretudo da linguagem. É através dela que acumulamos e consolidamos a memória que permitirá novos saberes e novas ligações para a projeção de nós mesmos no que chamamos de futuro. Assim, as palavras do índice remissivo citadas acima se materializam em objetos, coisas, ferramentas, eventos.


É impossível ignorar a multiplicidade de caminhos que surgem quando indagamos o tempo. As noções de passado, presente e futuro são inerentes aos eventos ou são frutos de nossa consciência, da relação que estabelecemos com os eventos? Modos de estar, ver e usar o tempo que chegam a se negar. Como pensar uma coisa no tempo? Qual a extensão de uma coisa no tempo? Nada é corriqueiro, quando lidamos com isso que nos acompanha desde sempre e que nos precedeu, no mundo e na vida. O tempo nunca é algo bruto, é, para além disso, pensado e vivido como possibilidade de algo existir, desde a cotidianidade de um artefato, até o valor de algo, como o valor do trabalho de alguém.


A existência das coisas é algo que merece um olhar mais demorado. O tempo, por incrível que pareça, quase pode ser negado, se nos lembrarmos que as coisas não existem fora de um evento balizado por datas. Um objeto, um utensílio, pode ter um prazo, sua “carreira de coisa” específica. Esse balizamento por datas que possui é dado por informações, como se é velha ou nova, se está no prazo de validade ou se passou, se é utilizada ainda ou se não serve mais. Apesar de sua “carreira de coisa” acontecer entre datas, ela poderá assumir lugares e papéis que não ligados estritamente ao seu uso, projetando outros lugares e tempos a quem as mira, e promovendo ligações entre os fragmentos do tempo. Nossos inúmeros relicários de coisas, nossos patrimônios de lembranças de espaços, gentes e de nós mesmos e de formas coletivas de vida.


O tempo, assim, assume formas híbridas de existência e participa de redes explicativas sobre o mundo e seus modos de transformação, e, se falarmos (ainda) no poder da linguagem e sua possibilidade em proporcionar a tecnologia, o estoque de saberes é incomensurável. Saber(es), linguagem, ferramentas e o tempo: quando pretendemos saber sobre onde estamos, nosso lugar no universo, e sobre o universo em si, o cosmos, o tempo surge em profusão, como teorizou Einstein, e Katie Bouman ilustrou.

#Temporalidades #Memória #CamposDeConhecimento

Referências


GELL, Alfred. A antropologia do tempo: construções culturais de mapas e imagens temporais. Tradução de Vera Joscelyne. Petrópolis,RJ: Vozes, 2014.

LATOUR, Bruno. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. Tradução de Gilson César Cardoso de Sousa. Bauru,SP: EDUSC, 2001.

MARQUES, Ana Martins. O livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


Helena Mollo é professora de Teoria e História da Historiografia do Departamento de História da Ufop.

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