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Quem fala também pode escutar?


Géssica Guimarães



Não vou me perguntar se tenho ou não lugar de fala para ingressar no debate que se acalorou desde o comentário crítico de Lilia Schwarcz sobre o projeto estético de Beyoncé. Não farei isso para não incorrer no risco do identitarismo essencialista, que reduz a complexidade das relações sociais às genitálias e à cor da pele. Afinal, a quem serve uma caracterização dos movimentos antirracistas e de mulheres como movimentos identitários? Deve ser útil àqueles que têm como objetivo, explícito ou velado, a diminuição do potencial revolucionário desses movimentos, que em suas críticas mais radicais apontam a relação intrínseca entre o sistema capitalista, sua lógica de exploração dos indivíduos e a apropriação que este mesmo sistema faz de relações hierárquicas e desiguais como aquelas engendradas em práticas racistas e sexistas (ARRUZZA, 2015).


Muito se tem discutido sobre o tema nas últimas semanas, e entre respostas conciliatórias e solicitações de responsabilização, ainda persistem aqueles que atacam o “lugar de fala” como um “lugar de cale-se”. Deve ser realmente difícil para grupos que sempre se sentiram autorizados a falar quando quisessem e o que bem entendessem sofrer algum tipo de interdito. Quem gosta de ser interditado? Quem se sente feliz em uma sociedade na qual seus pensamentos, seus costumes, sua religião, sua visão de mundo são cotidianamente desvalorizados e silenciados? Quem se sente confortável em um espaço público no qual percebe que suas opiniões serão descartadas ou deslegitimadas pela sua performance de gênero ou pela sua cor da pele? Se você realmente se abriu para as questões acima, você está pronto para um exercício que possa explorar o potencial político da empatia, ou seja, uma atitude ética que nos coloca não no lugar do outro, mas sim numa postura de reconhecimento do outro como um sujeito pleno, a quem eu confiro tamanho respeito a ponto de decidir escutá-lo.


Contudo, acredito que nós não vamos nos movimentar bem neste terreno se não atribuirmos a esse debate um fundamento histórico. É importante entender como as relações entre brancos e negros, homens e mulheres se constituíram historicamente para compreender o atual estado de coisas. Lélia Gonzalez, grande intelectual brasileira, defendeu um feminismo afro-latino-americano que reconhecesse na história do continente e do Brasil a importância de investigarmos as opressões de raça e de gênero que fazem parte do processo de colonização e perduram até hoje. Para ela, a experiência vai bem além da vivência individual:

Quando falo de experiência, quero me referir a um duro processo de aprendizagem em busca da minha identidade como mulher negra dentro de uma sociedade que me oprime e discrimina justamente por isso. Mas uma questão de ordem ética-política se impõe de imediato. Não posso falar na primeira pessoa do singular sobre algo que é dolorosamente comum a milhões de mulheres que vivem na região. Refiro-me às ameríndias e às amefricanas, subordinadas a uma latinidade que legitima sua inferiorização. (GONZALEZ, 2019, p. 111)

O que sugiro é que não esgotemos nossas energias na situação tal como ela se apresenta hoje, mas que possamos buscar na história o entendimento do porquê alguns grupos da sociedade brasileira têm reivindicado espaços para elaborar e refletir sobre a sua autodefinição (COLLINS, 2019), num movimento de autoconhecimento e de produção de uma imagem de si que não seja a reificação dos modelos, padrões e comportamentos que foram impostos pelos grupos opressores.


O lugar de fala é um conceito que foi bem apropriado pelos movimentos políticos e sociais nas últimas duas décadas e sua concepção remete a importantes reflexões e pesquisas no âmbito dos estudos subalternos e do pensamento feminista negro, porém a atual prática de “cancelamento” não consiste no objetivo desses estudos. Ao apontar as relações de poder presentes também na produção de conhecimento, o que se pretende é sublinhar que nenhum conhecimento é neutro, e que mecanismos de controle e opressão têm possibilitado que os enunciados de grupos que são historicamente privilegiados por essas relações assimétricas tenham recebido maior atenção e autoridade do que aqueles emitidos por grupos subalternizados e invisibilizados pelo sistema capitalista, pelo racismo, pelo machismo e pelo colonialismo. Por isso, é necessário que sejam produzidas memórias, narrativas e histórias contra-hegemônicas. O debate em torno do lugar de fala também não merece ser cancelado.


A intelectual indiana Gayatri Spivak nos perguntou, na década de 1980, se Pode o subalterno falar? (SPIVAK, 2010). Sua pergunta tem reverberado até hoje no debate sobre o lugar de fala, nos lembrando o incômodo que é produzido quando alguém pretende falar no lugar do outro. Todas e todos nós falamos sempre a partir de uma voz que tem um corpo, essa constatação nem mesmo é uma novidade. O que tem parecido problemática é a afirmação deste corpo como uma identidade essencial, sem maiores questionamentos acerca da história que ele nos conta. Corpos que desafiam o binarismo, dicotomias, caracterizações apressadas e concepções fixas de identidades socialmente construídas nos levam a considerar para além das aparências. Por isso, enquanto professora de história, me interessa respeitar o direito de qualquer pessoa à autodefinição e à produção de enunciados que dizem sobre sua maneira de compreender o mundo e a realidade. Por outro lado, também me é imprescindível que seja evitado qualquer gesto essencialista, que negue aos seres humanos aquilo que lhes é tão característico quanto as suas historicidades, seus corpos atravessados por histórias.

Imagino que quando estivermos realmente comprometidos com a construção de uma comunidade de escuta este debate ganhe outros contornos, pois sempre me pareceu que o lugar de fala não é excludente, ele apenas sugere uma reorganização entre aqueles que historicamente foram silenciados e aqueles mal acostumados com a verborragia. Será um bom encontro quando pudermos entender que o lugar de fala de grupos historicamente marginalizados reservou um lugar de escuta para aqueles que se dispuserem.



Agradeço de coração às amigas e aos amigos que fizeram a leitura prévia e a correção deste artigo.

#LugarDeFala #ComunidadeDeEscuta #EpistemologiasFeministas

Referências


ARRUZZA, Cinzia. Considerações sobre gênero: reabrindo o debate sobre patriarcado e/ou capitalismo. Revista Outubro, n. 23, 1º semestre de 2015.

COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: o poder da autodefinição. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (Org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. In: PEDROSA, Adriano; CARNEIRO, Amanda e MESQUITA, André (Org.). História das mulheres, histórias feministas: Vol. 2 antologia. São Paulo: MASP, 2019.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.


Géssica Guimarães é Professora de Teoria da História e História da Historiografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.