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“Que história a Folha vai contar?”

O que foi a ditadura


Sônia Meneses


Imagem do curso "O que Foi a Ditadura", de Oscar Pilagallo - Folhapress



No último dia 27 de junho, o jornal Folha de São Paulo lançou uma grande campanha editorial cujo foco é a Ditadura Militar instaurada em 1964. A campanha teve uma ampla articulação de conteúdos e promete ser uma ação a médio prazo que provavelmente irá se conectar com as comemorações dos cem anos do jornal, que ocorrerão em fevereiro de 2021.


A campanha se sustenta em várias ações: começou com uma pesquisa de opinião divulgada pelo jornal no mesmo dia, em 27 de junho, realizada pelo Instituto Data Folha, segundo a qual o apoio dos brasileiros à democracia bateu o recorde histórico, com 76% dos entrevistados apoiando esse regime, contra apenas 10% defendendo a ditadura. Além da pesquisa, o jornal lançou um amplo painel de artigos, colunas e outros textos explicando o período em suas mais variadas facetas. Completando a ação, uma semana de lives com convidados debatendo o tema e um curso on-line com o jornalista Oscar Pilagallo. A campanha articula mais um elemento: pede aos seus leitores que usem amarelo, tal qual a campanha das Diretas Já de 1984.


No plano político percebe-se que o jornal pretende relembrar sua atuação e construção de identidade associadas ao movimento das Diretas, quando se tornou um dos vetores de mobilização política na passagem do regime ditatorial para a democracia. Desse modo, pode-se dizer que a Folha quer chegar aos seus 100 anos evocando seu melhor momento político, em uma de suas fases mais delicadas, uma vez que, desde o primeiro momento do atual governo, foi declarada inimiga.


Não deixa de ser importante que um jornal de grande repercussão nacional discuta a ditadura. Em um momento em que assistimos a um crescente movimento de militarização, de discursos raivosos em defesa das mais variadas formas de autoritarismo e mesmo da apologia ao regime militar presente em vários grupos de ultradireita e até mesmo fora deles, ações que se propõem a explicar esse acontecimento são relevantes. A ação enseja ainda outro aspecto que é a produção de um tipo de ensino público da história. Além de produzir narrativas, distribuir conteúdos, o jornal também quer ensinar a história.


A Folha pode ensinar sobre o passado? Certamente, pois qualquer grupo ou pessoa pode produzir e falar sobre história, esse é um direito humano fundamental, e, nesse sentido, podemos vislumbrar as dimensões públicas dos usos do passado. Isso não nos impede, contudo, de interrogamos sobre essas produções e seus objetivos. Nesse sentido, poderíamos perguntar, por exemplo, como um grupo que apoiou abertamente os militares ao menos durante metade do período ditatorial, se colocará frente sua participação nessa história? Mais ainda, que 45 anos depois, ainda autorizava narrativas em suas páginas sobre o episódio, como tendo sido uma “ditabranda”? Qual a história da ditadura militar a Folha irá contar? Isso é o que nos importa.


Na primeira live organizada pelo jornal, Oscar Pilagallo teve que responder para a jornalista convidada Ingrid Fernandes, da Agência Mural, algumas dessas verdades inconvenientes. O jornalista tentou minimizar as coisas: “em 64 a Folha não era um jornal tão importante, talvez não fosse nem o segundo jornal mais importante”, ou “realmente foi uma expressão muito infeliz para se referir ao episódio”, sobre a referência à expressão ditabranda. Dessa forma, na primeira conversa ao vivo, a opção foi novamente pelo abrandamento, nesse caso, da posição do jornal sobre o acontecimento.


Na década de sessenta a Folha já era um grande jornal quando ganhou o formato que tem hoje com a unificação das chamadas três Folhas e mesmo se não o fosse, não ser tão importante não justifica o seu apoio. De outro lado, na primeira década do século XXI, a ideia de uma ditadura abrandada circulava, recorrentemente, no jornal, seja em textos de alguns de seus principais colaboradores como o historiador Marco Antônio Villa, argumentos apresentados de forma mais ampla na obra “Ditadura à Brasileira”, ou mesmo, pelo seu editor chefe, Otavio Frias Filho. Em 2009, por ocasião do polêmico editorial que dá visibilidade ao termo, Frias Filho fez mea culpa sobre o mal uso do termo, mas manteve os argumentos que o sustentaram:

Todas as ditaduras são igualmente abomináveis. Do ponto de vista histórico, porém, é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena – ou que a ditadura cubana de esquerda ( “Folha avalia que errou, mas reitera as críticas”, Da Redação – Brasil. Folha de São Paulo, 08/03/2009)

Não podemos esquecer que, desde 2013, a Folha, assim como outros grandes veículos de mídia do país, teve um papel muito significativo na derrubada do governo de Dilma Rousseff, portanto, é preciso mencionar que esse estado de escalada autoritária e fascista que vivemos no país, cujos resultados a Folha de São Paulo amarga, também teve sua contribuição, uma vez que optou por apoiar o esfacelamento de um governo a ponto de seu colapso. Sob o artifício do impeachment, a presidente Dilma Rousseff foi vítima de um golpe de estado jurídico midiático que ajudou no processo de desestabilização política em que nos encontramos e a Folha de São Paulo também esteve entre os apoiadores:

Enquanto Dilma Rousseff permanecer no cargo, a nação seguirá crispada, paralisada. É forçoso reconhecer que a presidente constitui hoje o obstáculo à recuperação do país. Esta Folha continuará empenhando-se em publicar um resumo equilibrado dos fatos e um espectro plural de opiniões, mas passa a se incluir entre os que preferem a renúncia à deposição constitucional. (Editorial - FOLHA DE SÃO PAULO, 02/04/2016)

Ao se colocar a favor da renúncia o jornal tenta a via “branda” da deposição, mas a posição é clara:

Dilma Rousseff deve renunciar já, para poupar o país do trauma do impeachment e superar tanto o impasse que o mantém atolado como a calamidade sem precedentes do atual governo (idem)

Ironicamente, 52 anos antes, em 02/04/1964 o jornal também havia lançado mais um editorial histórico em defesa da ordem, da nação, “Em defesa da Lei”:

Não houve rebelião contra a lei, mas uma tomada de posição em favor da lei. Na verdade, as forças armadas destinam-se a defender a pátria e garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem. Ora, a pátria estava ameaçada pelo comunismo que o povo brasileiro repele. (Editorial – Em defesa da Lei – Folha de São Paulo, 02/04/1964)

A intenção aberta do jornal em falar de história não é uma novidade e o tema da ditadura militar sempre foi recorrente em suas páginas nos últimos trinta anos em várias efemérides. Mas oferecer um curso especialmente voltado para assunto talvez seja o clímax dessa empreitada. Vejamos como a jornalista Fernanda Mena, vestida de amarelo, abre o conjunto das lives do jornal sobre o assunto:

A Folha lançou no último final de semana, uma campanha em defesa de valores democráticos, resgatando o uso da cor amarela que foi o símbolo da campanha das Diretas Já. O jornal também publicou um especial para explicar à maioria dos brasileiros como se deu e o que foi a ditadura iniciada em 1964. Isso porque segundo o IBGE (…) 54,2% dos brasileiros não haviam nascido em 1985, o ano em que terminou o regime militar no Brasil, o último regime militar no Brasil. Somando aqueles que no mesmo ano tinham menos de 10 anos de idade a gente chega a um percentual de 69, 9% dos brasileiros, isso significativa dizer que 7 em cada 10 brasileiros não tem nada memorável desse período em que se possa embasar para entender um pouco do que foi de maneira mais orgânica (…) o regime militar brasileiro. Mas a questão vai além, muita gente que viveu o regime militar estava alheia ao que ocorria de fato no país, seja porque o regime controlava o acesso a informações, seja porque censura veículos de comunicação, ou contava com a colaboração de alguns deles o resultado é um problema de memória (…) que gera uma percepção distorcida daquele período e hoje em dia é muito disputado sobre afinal o que foi a ditadura de 1964.

A fala apresenta várias questões emblemáticas para pensarmos, especialmente, sobre a maneira como a memória é compreendida de maneira instrumentalizada. Além, disso, o extrato acaba por nos denunciar outro problema: se nunca houve no país qualquer ação significativa para tornar esse evento memorável, ignora-se totalmente o ensino de história. Falhamos a esse ponto?


É inegável que há intensas disputas de memória sobre o episódio da Ditadura Militar na sociedade brasileira. Recorrentemente, o acontecimento vem à tona na cena pública instaurando várias demandas de sentidos. No que diz respeito às apropriações em sala de aula, quase sempre tivemos problemas, pela disposição de conteúdos na estrutura curricular, pelos lapsos no processo de ensino que relega o assunto às séries finais. Por outro lado, o fato de Brasil não ter realizado uma política de transição, não ter punido e investigado os crimes durante o período dificultou uma apropriação qualitativa sobre o episódio entre setores mais amplos da sociedade brasileira.


Porém, a fala da jornalista desconsidera totalmente o papel da escola na formação do pensamento histórico, como também lugar de/e produtor de memória. Nesse sentido, até mesmo a produção cultural advinda das mídias, como filmes, séries, canções, da produção de livros, sem mencionar a acadêmica, é ignorada. Então, é como se estivéssemos em um grande vazio de história e memória sobre esse tema que seria preenchido pelo jornal.


A afirmação de que: “7 em cada 10 brasileiros não tem nada memorável” sobre esse acontecimento demonstra como os grandes veículos de comunicação percebem a relação entre história e memória ainda como conceitos equivalentes. Por outro lado, é como se, se colocassem como os guardiões desse passado, que, finalmente, seria contado pelo site do jornal. É bastante significativo o fato de ser um jornalista e não um historiador ou historiadora a fazer isso.


Os meios de comunicação produzem história. Certamente uma escrita da história efetivada por outros caminhos, outra oficina articulada a partir da lógica das redações dos jornais; outros métodos e tratamento de fontes. Podemos dizer que temos nessa produção uma racionalidade bem elaborada que passa desde a escritura dos acontecimentos na cena pública até às inscrições no tempo, efetivando-se num exercício na monumentalização desses conteúdos em um processo contínuo de rememoração e reconstrução de narrativas.[1] Na última década, pode-se dizer que a relação entre a grande mídia e os lugares tradicionais de produção histórica não foi das mais amistosas, basta mencionarmos os ataques à historiografia ou mesmo ao ensino de história.


Um dos efeitos colaterais desse processo foram os ataques a professoras e professores chamados de doutrinadores, as desqualificações de materiais e conteúdos históricos, a exemplo das altercações que surgiram em torno do livro didático, que na grande mídia foi apelidado de o “livro do Mec”, denominação pejorativa para desacreditar as produções didáticas da história.


A ditadura militar, em todos os aspectos, tem sido um acontecimento chave para a Folha de São Paulo, um divisor de águas em sua história e mesmo em contínuas reconstruções da memória. De apoiador de primeira hora do Golpe até a construção de opositor político e depois, canal da democracia, o jornal tem no episódio uma chave continuamente acionada para marcar suas mudanças políticas e editoriais.


Ao ensinar a história do episódio o periódico pretende assumir o último estágio no processo de produção, difusão e letramento histórico. Tenta nos dizer que, além de se apresentar como “canal da democracia” como o fez antes, agora também é um lugar autorizado a explicar à coletividade dos brasileiros o que foi passado, nesse sentido também pode administrar os silêncios e omissões na história.


Nessa versão, a participação do jornal no episódio é apenas uma sombra, um lugar quase silencioso, de pouco ruído, passa como se estivesse pisando em gelo fino. Foi vítima que sofreu com a censura e as imposições do regime, é que nos diz um pequeno extrato do curso oferecido pelo jornal:

Censura branca - A imprensa sofria censura de duas maneiras. Alguns jornais aceitavam as ordens passadas pelo censor. Praticavam a autocensura, ou censura branca. Esse foi o caso da Folha de S.Paulo na época.” (O que foi a ditadura - Os porões e o palácio)

Se, por um lado, a leitura sobre a atuação no jornal na ditadura resume-se a essas três linhas no curso oferecido em seu site, a Folha é alçada ao primeiro plano das ações responsáveis pela saída do país do período ditatorial, ao ser apresentada como a liderança responsável pela campanha das Diretas Já, que conduziu o país à democracia:

Após o fracasso do Comício no Pacaembu, o jornal Folha de S.Paulo propõe o que seria a mais importante manifestação pela redemocratização: a campanha Diretas Já, na qual convocava os cidadãos a vestirem amarelo pela democracia. (O que foi a ditadura - A Retomada da Democracia no Brasil)

Não há dúvidas que temos que considerar que os processos de ensino de história no Brasil têm vários aspectos a serem refletidos e avaliados profundamente como a formação de professores, as dificuldades de trabalharmos com os alunos o pensar historicamente ou ainda a predominância de grandes sínteses históricas como as únicas versões da história.


Mas a história está aí, lembrando uma frase do jornalista Moacir Scliar ao olhar para a parede da redação do jornal nos anos 90. Mas, além da parede branca com as letras garrafais das manchetes, ela está na rua, é pública, está no jornal, no site, ela circula por nossa sociedade e nesses caudalosos rios de muitos fluxos é preciso atenção, nenhuma narrativa conta tudo e é, exatamente aí, onde ela omite, silencia e, deliberadamente, esquece que devemos procurar os dissensos, as intencionalidades, os motivos, os objetivos de cada uma dela.

Nota

[1] Procurei demonstrar esse processo em minha tese de doutorado, quando analisei várias etapas dos processos de elaboração do jornal Folha de São Paulo com o Golpe de 1964, denominei esse processo de operação midiográfica.

#FolhadeSãoPaulo #DitaduraMilitar #EnsinodeHistória #Mídia #HistóriaPública

Referência


MENESES, Sônia. A Operação Midiográfica: A Folha de São Paulo e o Golpe de 1964. São Paulo, Intermeios. 2017.


Sônia Meneses é professora de teoria da história na Universidade Regional do Cariri-URCA, tem doutorado pela Universidade Federal Fluminense - UFF; pós-doutorado pela Universidade de São Paulo - USP. Estudas as relações entre história e mídia, história pública, tempo presente.