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Puerpério e o isolamento social ou o "lado B" da pandemia


Amanda Danelli Costa


Foto: Pixabay


Longe de romantizar o isolamento ou a maternidade, o lado A que expus anteriormente fala de um registro muito íntimo daquilo que eu experimento como algo bom neste momento atravessado pelo trágico: os afetos nos chamegos entre mãe e filha em quarentena, que me remetem ao aprendizado da acolhida quando puérpera. Neste momento, no entanto, há algo novo, e eu não me refiro apenas à Covid-19. Agora, pela primeira vez desde a licença-maternidade, passo dias inteiros dentro de casa com a minha filha, sendo a distância máxima entre nós duas algo em torno de 14 metros ou 9 segundos, a depender da pressa.


Desde o fim da licença-maternidade até o início da quarentena, eu tive muitos dias inteiros com ela, claro. Aos fins de semana, nos feriados, férias e sempre que ela esteve doentinha. Apesar disso, é impossível produzir paralelos. Como eu nunca fui de gastar tempo livre em casa, também com ela buscava a rua, nos espaços livres e fechados. Sempre que possível, encontrando amigos nossos, meus e dela, além dos familiares. Nosso tempo-espaço era bastante mais ampliado do que o atual (14 metros/9 segundos). Multiplicávamos afazeres e sentires no mundo.


Outro dado fundamental da impossibilidade de paralelo para o modo como hoje estamos juntas é que os fins de semana, feriados e férias eram, ao menos em regra, tempo de descanso remunerado, ou seja, um tempo livre qualificado, garantido por legislação para a diminuta parcela de trabalhadoras estatutárias, da qual faço parte. Tanto durante a licença-maternidade como nos fins de semana, feriados e férias, me era resguardado o direito de um tempo para estar com ela, mas não apenas, estreitando vínculos entre nós duas e com o mundo ao redor.


Minha rotina de trabalho esteve, todos esses anos, condicionada especialmente a dois fatores: ao período escolar da pequena (espaço marcadamente feminino) e à terceirização dos serviços domésticos a uma outra mulher. Frequentemente era necessário mobilizar também as avós, especialmente à noite, já que dou aulas nesse turno.


A situação de pandemia e a quarentena fizeram com que muitas mulheres de classe média, eu inclusive, experimentassem pela primeira vez em suas vidas a necessidade de realizar todas as tarefas (trabalho, serviço doméstico e cuidados com crianças e idosos) no mesmo tempo-espaço. Sublinho que mesmo aquilo que se experimenta como um problema tem seu viés de privilégio: até então, eu (mulher branca e latino-americana) não precisava realizar trabalhos domésticos no contraturno ou aos fins de semana; não precisava levar a minha filha para o meu local de trabalho; não precisava me adaptar à escassez de vagas em creches públicas e aos seus horários que dificilmente atendem às mães; não precisava abrir mão do lazer fosse por falta de recursos ou de tempo. Aliás, apesar de lidar com o problema de sobreposição de tarefas no mesmo tempo-espaço, mesmo isso se dá em um território de conforto: eu e meu companheiro, pai da minha filha, estamos empregados e recebendo salários (apesar das ameaças para os próximos meses); vivemos em um apartamento alugado e pequeno, mas cômodo e abastecido, em um bairro da zona sul carioca; temos plano de saúde, carro e o mínimo de ferramentas para realizarmos o teletrabalho.


Quando, durante o puerpério, eu vivi algum nível de isolamento social, o fiz confortavelmente, gozando uma licença – maternidade e aleitamento – maior do que a da imensa maioria das mulheres brasileiras. Havia tempo livre para produzir a acolhida e cuidar da pequena, coisa que agora é escassa. De modo que o dado mais íntimo do lado B desta quarentena tem sido o de não poder gozar da proximidade (14 metros/9 segundos) com a minha filha, que só tem 4 anos e meio (o dado mais dramático tem sido o medo de morrer e de deixá-la ainda criança, sem os meus cuidados). Se, por um lado, eu consigo dar colo, produzir e estreitar vínculos; por outro lado, quando o faço já não estou, nesta nova normalidade, protegida pelo direito à licença-maternidade ou pelo direito ao descanso remunerado (que agora resta apenas na letra lei, já que trabalho 7 dias na semana, cerca de 15 horas por dia).


O trabalho doméstico, essencial para a reprodução da vida neste espaço, além de não me remunerar, não me dá folga. E, apesar de contar com a ajuda do meu companheiro, eu sigo realizando a maior parte das tarefas domésticas: os cuidados com a casa e com a criança (desde os mais prosaicos aos mais complexos, que neste momento incluem elementos da rotina escolar) são tarefas principalmente minhas. Além disso, há as demandas de teletrabalho que se reproduzem aceleradamente em um ritmo absolutamente descompassado, dadas a excepcionalidade e as contingências do momento.


Pouco depois do início da quarentena, recebi um e-mail de um blog com dicas sobre como administrar o teletrabalho com a criança em casa. Li-o atentamente em busca de algum pulo do gato que eu ainda não tivesse conseguido perceber, mas não encontrei nada que me servisse objetivamente. O texto não considerava as particularidades inerentes às diferentes idades das crianças – a minha filha não passa mais do que alguns minutos brincando sozinha, ainda não sabe ler nem compreende bem o fato de que eu não estou disponível todo o tempo, apesar de estar em casa – e também desconsiderava que os trabalhos a serem desenvolvidos em tele-trabalho são distintos. Para o trabalho acadêmico, por exemplo, é mais difícil obter os resultados esperados dividindo as 8 horas diárias em pequenos blocos de 1 ou 2 horas, com intervalos para estar com a criança (em realidade, fico me perguntando como uma criança pode ficar sozinha por 1 ou 2 horas várias vezes por dia?...). Por outro lado, é igualmente difícil se isolar por 3 ou mais horas seguidas, em uma casa em que todos os cômodos são compartilhados.


Nas escassas discussões sobre o tele-trabalho na universidade, tal como noutros espaços, as mulheres são invisibilizadas. Raramente a sobreposição de tarefas, o acúmulo de trabalho, as segundas e terceiras jornadas são tematizadas e frequentemente não são mais do que apenas tematizadas, como se fossem um adendo. Não há, mesmo nos ambientes em que se discute intelectualmente sobre os papéis de gênero, iniciativas institucionais eficientes para transformar a exploração e a desigualdade que toca as mulheres (alunas, professoras efetivas e substitutas, técnicas-administrativas, terceirizadas).


O lado B da pandemia por aqui é, afinal, atravessado por algumas das desassistências reproduzidas pelas instituições de um Estado patriarcal que pesam, de diferentes maneiras, sobre todas as mulheres, precarizando ainda mais as nossas existências (e também das nossas crianças).

#IsolamentoSocial #Maternagem #DesigualdadeDeGênero


Amanda Danelli Costa é historiadora, mãe, feminista e professora do Departamento de Turismo da UERJ.