• HuMANAS: Pesquisadoras em Rede

Os capitais das favelas sob as redes dos Leeds


Rachel de Almeida Viana


Jacarezinho. Década de 1960. Mulheres e crianças na beira do rio. Departamento de Arquivo e Documentação. Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. BR RJ COC LE DP RV 12


Divulgação da Pesquisa: VIANA, Rachel de Almeida. Encontros etnográficos e antropologia em rede: a favela do Jacarezinho e a pesquisa de Anthony e Elizabeth Leeds na década de 1960. 353f. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós Graduação em História da Ciência. Orientadora: Nísia Trindade Lima. Rio de Janeiro: sn, 2019.

Imagine você, mulher, morando numa favela na década de 1960. Ruas não urbanizadas, cabines de luz controladas por outros moradores – pelos mais abastados da chamada “burguesia favelada” (Silva, 1967) – e, com muita sorte, uma rede de distribuição de água. Em muitas favelas daquele período, era na base da lata d'água na cabeça mesmo. Mais do que a sombra dos riscos de desastres naturais, neste período pairava sobre os moradores a sombra das remoções, bem como pesava sobre eles o estigma de criminosos, delinquentes, marginais, incapazes de organização política, ingênuos, entre outros rótulos ainda recorrentes. No entanto, favela também sempre foi lugar de trabalhadores e de muito trabalho. Afinal, construir uma casa, em terreno irregular, requer mobilizar muitos capitais, sobretudo o financeiro, o político e o humano. Requer, portanto, o acionamento de redes de apoio e, para usar um termo da época, ajuda mútua, para que fosse possível a própria existência da favela. Logo, ser mulher moradora de favela nunca foi tarefa fácil, apesar das romantizações acerca da vida nesses tipos de habitações de baixa renda.


Na literatura, com a obra Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, podemos imaginar as dificuldades enfrentadas por uma mulher negra e pobre, mãe solo, vivendo em condições precárias. No cinema, cujas narrativas sobre a favela remontam ao ano de 1935, a imagem produzida sobre as favelas contavam com alguma dose de romantismo. Mas, apesar das favelas já serem bastante conhecidas pelas artes, persistia a associação entre favela e pobreza. Essa associação também se via nas ciências sociais que tratavam das habitações de baixa renda. Num contexto em que o desenvolvimento era tema privilegiado de discussões das ciências sociais, tomaram força duas teorias que, se não justificavam as políticas de remoção, ao menos impregnava o imaginário, o discurso e o tratamento de administradores públicos, políticos e, claro, do senso comum em relação às favelas e aos seus moradores. A teoria da cultura da pobreza, encabeçada por Oscar Lewis (1965), afirmava que a apatia e a desorganização política explicavam a reprodução da pobreza ao longo do tempo. A teoria da marginalidade pressupunha haver causas econômicas que explicariam os obstáculos à modernização e ao desenvolvimento. O ponto comum entre essas teorias é a individualização do fenômeno da pobreza e a assunção de que os pobres eram incapazes de assimilação do estilo de vida urbano, estando condenadas, portanto, ao isolamento, a não integração de pessoas e locais.


No entanto, havia uma corrente de cientistas sociais que, associados em uma rede científica, construíram empiricamente a superação das teorias da marginalidade e da cultura da pobreza. Num momento em que as favelas estavam entrando na agenda de pesquisa das ciências sociais no Brasil e que a política externa estadunidense de boa vizinhança mobilizava diversos recursos para as habitações de baixa renda na América Latina, formou-se essa rede científica para estudar as favelas. Partindo do princípio de que as ditas teorias careciam de dados empíricos e de que as favelas eram soluções, e não problemas urbanos, o antropólogo Anthony Leeds e a cientista política Elizabeth Leeds, estadunidenses, dedicaram-se ao estudo sistemático das favelas na década de 1960.


É justamente a análise histórica dessa pesquisa etnográfica que trata a tese intitulada Encontros Etnográficos e Antropologia em rede: a favela do Jacarezinho e as pesquisas de Anthony e Elizabeth Leeds na década de 1960, defendida em 2019 no Programa de Pós Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz[1]. Através dos documentos produzidos e acumulados pelos Leeds na favela do Jacarezinho, onde moraram por mais tempo, foi possível analisar e reconstruir historicamente o trabalho de campo realizado por essa rede científica que incluía intelectuais brasileiros e moradores de favelas. Tal empreitada implicou em reconstruir o que era o Jacarezinho naquela época – seus principais personagens, conflitos, redes de moradores, infraestrutura, trabalho, representações, entre outros aspectos que retratam histórica e sociologicamente o que era morar naquela localidade, naquele determinado momento.


No calor da Guerra Fria e das ditaduras militares na América Latina é possível imaginar os revezes vividos pelos pesquisadores e pelos moradores ao longo da vivência e da interlocução entre eles. Afinal, sendo boa parte desses pesquisadores oriundos dos EUA e havendo mobilização política nas favelas (com direito a presença de militares e comunistas ao mesmo tempo), havia também desconfiança por parte dos moradores em relação àqueles estrangeiros. Ao mesmo tempo, era evidente o impacto desses processos históricos no cotidiano das favelas e na condução da pesquisa empreendida por essa rede científica. Partindo do princípio de que eram redes em interação – isto é, a rede científica, formada pelos pesquisadores, e as redes do campo, formadas pelos moradores – a reconstrução da primeira etnografia realizada nas favelas ganhou seus contornos na tese.


No que tange à perspectiva de gênero, é possível verificar nesta pesquisa o papel destacado das mulheres nas favelas, uma vez que a documentação permitiu reconstruir os principais personagens, conflitos e interações dos moradores. Nesse ponto, destaca-se a atuação delas na economia das favelas, na medida em que investiam mais na melhoria das casas, nos empreendimentos, bem como representavam parte considerável da força de trabalho, inclusive nos mutirões. Também se percebe a atuação das mulheres na política interna das favelas, sobretudo no que tange à vida material e à infra estrutura, mais especificamente, a distribuição de água e luz. Embora não apareçam na documentação como personagens principais nos conflitos e negociações políticas do Jacarezinho, elas aparecem com maior destaque em Nova Brasília, local onde as principais lideranças políticas eram mulheres. Em suma, as mulheres são personagens importantes na circulação de capitais dentro das favelas.


No que tange à rede científica, é importante verificar algo recorrente quando se trata de um casal de cientistas: a tentativa de apagamento da mulher. No caso de Elizabeth Leeds, a colaboração da cientista política nas análises do antropólogo foi ressaltada na tese, bem como a sua autonomia em relação ao esposo e colaborador. Embora fizessem pesquisas sobre o mesmo objeto de estudo – as favelas – suas pesquisas eram independentes. Se ele focava mais a vida material daqueles moradores, ela focava a vida política e as relações dos moradores com o Estado. Isso significa que as perspectivas de análise mais políticas presentes nas pesquisas de Anthony Leeds resulta justamente dessa colaboração com Elizabeth Leeds.


Não menos importante, cabe ressaltar o que era ser mãe e pesquisadora no final dos anos 1960. Em 1969, o casal passa o ano no Brasil, quando Anthony Leeds, através de uma bolsa da Fundação Ford, leciona duas disciplinas no Museu Nacional. O primeiro curso de antropologia urbana em nível de pós graduação e o curso de ecologia humana. Na ocasião, o primeiro filho do casal era recém nascido e Elizabeth Leeds realizava sua pesquisa de mestrado. Apesar de decidirem morar em Copacabana, e não no Jacarezinho, Elizabeth Leeds dava continuidade ao seu trabalho de campo. Ou seja, era preciso alguma infraestrutura para que pudesse realizar sua pesquisa e cuidar de um bebê pequeno.


Obviamente, tais dificuldades enfrentadas pela cientista não chegava nem perto daquelas enfrentadas por suas interlocutoras, moradoras do Jacarezinho. Afinal, no Brasil, a cientista podia contar com o trabalho doméstico profissional, como sempre foi comum em famílias de classe média e da elite brasileira. No entanto, o ponto de encontro entre a cientista e suas interlocutoras dava-se justamente pelas dificuldades decorrentes da conciliação entre a vida profissional e a vida doméstica. Não por acaso, a conclusão de seu mestrado deu-se somente em 1974, após o nascimento do segundo filho do casal. Também não é por acaso que, entre os pares daquele período, o reconhecimento da obra seja dada mais a Anthony do que a Elizabeth Leeds, algo que busco dar a devida simetria na tese, reconhecendo a ambos o protagonismo da pesquisa. Mesmo considerando que na década de 1960 a cientista política estava ainda em formação, não se pode obliterar a contribuição e colaboração dela, bem como a autonomia científica em relação a seu colaborador. Nesse sentido, a tese cumpre o papel de dar o devido reconhecimento e peso maior à colaboração da cientista política com o antropólogo e vice versa.

Notas


[1] A tese recebeu, em 2020, o Prêmio Oswaldo Cruz de Teses, na área de Ciências Sociais e Humanas.

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Referências


LEWIS, Oscar. La vida, a puerto rican family in the culture of poverty. San Juan and New York, Random House, 1965.

MACHADO DA SILVA, Luiz Antônio. A política na favela. Dilemas: revista de estudos de conflito e controle social – vol 4, n4, out-dez, 2011 [1967].


Rachel de A. Viana é cientista social, mestre e doutora em História da Ciência pela Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. Atualmente é pesquisadora de pós-doutorado na Casa de Oswaldo Cruz e professora de sociologia da rede pública estadual do RJ.