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O fenômeno dos(as) intelectulikes e o vale-tudo na disputa por audiência nas mídias sociais


Ana Carolina Barbosa Pereira


Ilustração: Marco Melgrati | Instagram


Depois dos broadcasters, conectores, low profiles e legitimadores(as) de tribo, surge um novo perfil de usuário de mídias sociais que almeja tornar-se influenciador(a) digital. Eu me refiro aos(às) intelectulikes. Se bem sucedido(a), um(a) intelectulike pode um dia tornar-se broadcaster, ao mesmo tempo em que pode servir como legitimador(a) de tribo, pois essas tipologias se complementam mutuamente. A diferença, contudo, é que os(as) intelectulikes provêm todos(as) da categoria dos(as) intelectuais.


Mas os(as) intelectulikes deliberadamente se distanciam de sua categoria de origem para se metamorfosearem em um tipo “automatizado” de pensamento, marcadamente autoritário, prescritivo, polarizante e pouco reflexivo. Esse comportamento em nada se aproxima dos diversos perfis de intelectuais e das iniciativas acadêmicas institucionais que instrumentalizam os recursos disponíveis nas plataformas digitais para comunicar e divulgar conteúdo de modo refletido, responsável e comprometido com a qualidade e com a ética do conhecimento científico.


Muito diferente disso, a marca primordial dos(as) intelectulikes é a metodologia da polêmica e o argumento repetitivo da necessidade de “furar bolhas e disputar audiência”. Em conjunto, essa metodologia e esse argumento instauram um regime de vale-tudo e com ele a velha máxima “dos fins que justificam os meios”. Conhecemos bem esse tipo de estratégia e sua vinculação com campanhas de impulsionamento de figuras públicas odiosas que foram, inclusive, catapultadas a cargos presidenciais em alguns países do globo. No que diz respeito à ética e à prudência, portanto, os(as) intelectulikes operam na direção oposta à dos(as) intelectuais.


Não satisfeitos(as) em se distanciarem de sua categoria de origem, os(as) intelectulikes têm, ainda, o hábito de prescrever ações e por isso repetem, repetem e repetem como deve ser o engajamento político dos(as) intelectuais. Insinuam ou dizem abertamente que aquele(a) que não dominar as ferramentas disponíveis perderão espaço e funcionalidade na sociedade do digital. Os(as) intelectulikes construíram para si uma autoimagem de vanguarda, uma percepção de si como os(as) únicos(as) a terem efetivamente decifrado os códigos do mundo digital. E por isso mesmo prescrevem, prescrevem e prescrevem.


Outra característica dos(as) intelectulikes é que eles(as) adoram, igualmente, críticas e elogios. Guiados pelo antigo princípio do “falem mal, mas falem de mim”, agora mais propriamente caracterizado como “métricas da vaidade” no universo das mídias digitais, os(as) intelectulikes atingem seu real objetivo quando ativam os quantificadores de impulsionamento. Afinal, a intensidade do gozo dos(as) intelectulikes é medida pelo número de curtidas, compartilhamentos, retweets, comentários e seguidores(as).


Como se pode notar, os(as) intelectulikes gostam de críticas não por estarem atentos(as) ao conteúdo que elas comunicam e o crescimento que elas podem promover, mas sim pelo simples fato de as críticas e comentários “engordarem” as métricas da vaidade. Prova disso é que, quando questionados(as) ou criticados(as), os(as) intelectulikes têm em seu repertório apenas duas respostas possíveis. Respostas suficientemente plásticas para serem aplicadas em quaisquer discussões ou polêmicas, sempre de forma intercalada.

Resposta 1: Feita uma postagem pública com conteúdo polêmico, a tendência é que pessoas se engajem, comentem, elogiem, mas também critiquem. Frente às críticas, os(as) intelectulikes responderão que, apesar da polêmica e independentemente das posições e posicionamentos adotados nos comentários, o importante é que a postagem rendeu um enorme debate!
Resposta 2: Frente às críticas, os(as) intelectulikes responderão com a polarização e consequente desqualificação de parte de seus/suas interlocutores(as), especialmente as mulheres. Além de sugerirem que as críticas são um problema de interpretação das(os) críticas(os), tratarão de dividir os(as) interlocutores(as) entre “nós” e “eles”. “Eles”, neste caso, serão todos identificados como leitoras(es) incompetentes e, sobretudo, como inimigos(as) “disso” ou “daquilo” – isto é, qualquer coisa hipostasiada como de valor comum inquestionável e, portanto, não aberto a discussão.

Nós, historiadores(as) e professores(as) de história experimentamos recentemente os efeitos da polarização decorrente da ação de intelectulikes. Eu me refiro ao episódio envolvendo a Associação Nacional de História e, sobretudo, sua repercussão entre a comunidade de historiadores(as) que se manifestaram nas mídias sociais através de seus perfis particulares.


Contrariando seu próprio estatuto, especialmente o artigo 4º, que trata do respeito aos “princípios éticos e morais na consecução de seu objeto social”, a Associação Nacional de História (ANPUH), em seu perfil oficial do Twitter, decidiu agradecer nominal e publicamente o apoio ao projeto de regulamentação da profissão de historiadores(as), vindo de um deputado federal conhecido, dentre outras coisas, por reencenar uma situação de estupro, do qual teria sido o autor, em um programa da TV aberta. Um tweet para lá de polêmico!


As críticas não tardaram e foram muitas. Imediatamente pudemos perceber, pelas postagens de perfis individuais de historiadores(as) de várias IES Brasil afora, a polarização da categoria. Isso porque uma narrativa, em especial, ganhou força rapidamente e estabeleceu uma divisão dos(as) historiadores(as) entre os(as) que apoiariam a Associação e o projeto de regulamentação da profissão (o fim que justificaria os meios), e os(as) que supostamente seriam inimigos da regulamentação e da própria Associação, pelo fato de criticarem o tweet. Nada mais simplista e alheio ao debate e à reflexão esperada em casos delicados como esse.


A resposta ao polêmico tweet da ANPUH foi a polarização da categoria de historiadores(as) e professores(as) de História e a consequente condenação moral daquelas(es) que se colocaram criticamente frente aos que julgaram ser uma ação equivocada da Associação – também aqui, especialmente as mulheres. Casos assim explicitam os terríveis efeitos da metodologia da polêmica e da política do vale-tudo, dos fins que justificam os meios. E, além disso, descortinam também uma enorme contradição, pois, contrariando a expectativa de romper com as bolhas, a metodologia da polêmica na realidade demonstrou criar e reforçar a polarização.


Lamentavelmente, os(as) intelectulikes são mais uma dentre outras expressões do preocupante fenômeno de “automatização do pensamento humano” – uma espécie de alteridade radical do pensamento reflexivo e consequente, comum entre os(as) intelectuais. Gente pensando como algoritmo – “se isso… então isso daqui”; “se não isso… então aquilo lá” – revelando, para o espanto de Alan Turing, no além, uma inversão do jogo da imitação.

#Intelectulikes #MetodologiaDaPolêmica #Polarização


Ana Carolina Barbosa Pereira é graduada em História pela UFG (2003), mestre e doutora em História pela UnB (2007/2013). É professora de Teoria e Metodologia da História na Universidade Federal da Bahia e do Programa de Pós-Graduação em História, na mesma instituição.

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