• HuMANAS: Pesquisadoras em Rede

Divulgação histórica no turbilhão das Redes

Navegar é preciso, ser compreendido(a) não é preciso


Sônia Meneses




Narra Plutarco que no século I a.c., quando o general romano Pompeu ia partir em viagem, na hora da saída, abateu-se uma forte tempestade que varreu os mares. Para dar o exemplo, o general foi o primeiro a subir no navio conclamando seus jovens marinheiros: “Navigare necesse, vivere non est necesse.


Muitos séculos depois, Fernando Pessoa, extasiado pela potência do enunciado, exclamava: “(…) Quero para mim o espírito d’esta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: viver não é necessário; o que é necessário é criar”


Navegar é preciso, viver não é preciso.


A velha frase, dita em tantas ocasiões e séculos diferentes, ainda não perdeu sua energia poética, tampouco o encorajamento:


Navegue! Crie! Pois viver não é garantido.


O conceito de navegação talvez nunca tenha estado tão presente e se colocado como desafio coletivo para tantas mulheres e homens que partilham de uma temporalidade. Agora, não são apenas os antigos marinheiros chamados a se lançarem ao desconhecido. Qualquer um(a)carece aprender a navegar e assim precisamos, porque o mar da informação nos cercou de uma maneira incontornável. Mais do que isso, somos nós parte dele e compomos seu movimento com as informações daquilo que somos. Minúsculas ilhas que se conectam em infinitos canais através de redes, ideias, posicionamentos, comportamentos, manifestos.


Lembrando as palavras de outro poeta, Paulinho da Viola, o mar também nos navega, como fosse nos carregar, como se fosse nos levar. E ele leva, por vezes. Se lá, entre aqueles(as) navegadores(as) dos mares milenares, a vida não era garantida, aqui também, ela pode perder-se no movimento voraz de nossos mares de bits e bytes. Nessa agitação de ondas e tempestades tudo é possível.


Nada é certo, mas navegar é preciso.


Talvez possamos até falar que estamos vivendo o tempo de uma historicidade digital, marcada pelo tempo fluido, condensado e rápido e, nesse tempo, a precisão se dá, menos pela certeza do que nos ocorrerá, e mais pela necessidade da navegação. De tal modo, em muito pouco tempo tivemos que nos acostumar com a profusão desconcertante de conteúdos, com as exigências que nos dizem que precisamos nos posicionar, que devemos aceitar as provocações de nosso tempo, respondê-las. Nesses mares urgentes e insanos, intensamente navegados, nos perdemos tantas vezes e em tantos portos de novas decadências que,em muitos momentos, estamos prestes a naufragar.


É possível navegar sem nos rendermos aos arquétipos da polêmica, das armadilhas das superficialidades, das imagens toscas, das representações insensatas?


E a história? Como falar dela no tempo de uma pressa lancinante? Como resguardar o lugar fundamental do pensar lento, do silêncio, da reflexão da pesquisa? Em que medida as exigências de respondermos às métricas, aos likes, às audiências vorazes não nos tornarão os timoneiros de nossa própria decadência intelectual?


Navegar não é preciso, assim como aprender com a história não é garantido.


Não há garantias. Há apenas a necessidade da história. Necessitamos da história, mesmo não tendo certezas e seus ensinamentos serão ouvidos, muito menos se seremos compreendidos(as). Compreender, implica sempre uma troca de experiência e, como nos lembra Gadamer, “toda experiência é confronto, já que ela opõe o novo ao antigo e, em princípio, nunca se sabe se o novo prevalecerá, quer dizer, tornar-se-á verdadeiramente uma experiência”. Mas compreender, na dimensão hermenêutica, é considerar a íntima relação com outro que deve ser visto em sua diferença, assim, o próprio passado é o nosso outro cujo diálogo com o presente é sempre problemático. Falar de história é, mais do que nunca, preciso.


Nesse sentido, os usos das redes sociodigitais instauraram questões profundas em nossos processos cognitivos, sociais, culturais e políticos. Fomos levados(as) por uma reação em cadeia que atingiu nossas apropriações sobre o tempo e as interpretações que realizamos sobre o mundo através dos elementos de uma informação reticular.


Se, num primeiro momento, a Internet em todas as suas potencialidades foi apresentada como grande projeto utópico de democratização da informação e do conhecimento, a realidade das últimas duas décadas tem demonstrado que, se não forem enfrentados de maneira contundente os problemas da responsabilidade e da ética no universo virtual, especialmente quando no referimos às redes sociodigitais, a própria democracia ocidental, nos moldes como hoje a conhecemos, pode estar em risco. Vários são os exemplos que demonstram como os maus usos dessas ferramentas podem impactar em diversas situações em nosso cotidiano.Desde a influência em processos eleitorais até a disseminação de discursos de ódio sobre diversos temas.


Embora essas plataformas de compartilhamento tenham trazido para cena pública a possibilidade de usuários produzirem seus próprios conteúdos, além de distribuí-los, há limites muito preocupantes nessas ações. No coração da rede mundial de computadores, predominam grandes empresas que gerenciam gigantescos bancos de dados, economias nacionais, acervos ilimitados, artefatos culturais de todos os povos ao redor do mundo e os dados pessoais de seus bilhões de usuários, hoje o capital mais valioso dentro desse “liberalismo informacional”, nos termos de Benjamin Loveluck. Não há qualquer clareza sobre como esses dados podem ser utilizados por outras empresas e grupos políticos com fins de intervenções em diversos processos sociais na contemporaneidade.


A própria organização do sistema que tem por base algoritmos acaba direcionando e controlando o raio de ação dos usuários. Na prática, as bolhas digitais acabam por limitar as opções de informação dispostas aos internautas, visto que o sistema algoritmo seleciona e direciona para cada uma quilo que, em tese, satisfaria suas necessidades em demandas que articulam aspectos morais, políticos,comportamentais, dando pouca margem, dessa maneira, para mudanças qualitativas de posicionamento. Nesse sentido, alguns gigantes da internet se especializaram no serviço de gestão algorítmica que controla aquilo que é visto nas redes e conseguem operar quase numa dimensão microscópica de sujeito a sujeito.


Nesse ponto a história, enquanto campo do conhecimento, talvez tenha que enfrentar o seu maior desafio, a começar pela própria matéria de nossas investigações: o tempo,os homens e mulheres no tempo, para evocar a máxima de Bloch. De repente, nos deparamos com questões as quais não havíamos projetado como problema, a exemplo,a força avassaladora das demandas públicas lançadas à história nos últimos anos ou da explosão negacionista sobre questões que já imaginávamos consolidadas como saber. Outra questão diz respeito a como nos portaremos agora e no futuro frente à espantosa produção de novas fontes de pesquisa, cuja abundância requer a construção de acervos e metodologias absolutamente novas. Como dialogar com tantos novos narradores e fazedores de história a competirem com nossa velha oficina?


Lançar-se ao mar foi preciso.


Aos marinheiros de primeira viagem, realidade de uma parte considerável de historiadores e historiadoras no universo digital, o percurso tem sido turbulento. Enjoos, indisposições, exercícios de uma tempofagia difícil. Deste modo, a história na cena pública deu de cara com os linchamentos virtuais, imposições, imposturas, indelicadezas e nós fomos instados(as) a fazer desses mares também um de nossos lugares de produção. Essa viagem está apenas começando e talvez nunca tenha sido tão necessário realizarmos uma história compartida. Compartilhar, verbo transitivo que pede complemento, porque é no encontro com o outro que se constrói uma nova conduta em rede.


Nesse exercício de divulgação e navegação, talvez seja necessário, em alguns momentos, baixar a âncora, rever estratégias, consultar as nossas cartas náuticas do tempo para nos pormos novamente mar adentro. Importa que não nos afoguemos enquanto grupo, não naufraguemos. Não há dúvidas que a história enquanto campo do conhecimento passa por um intenso e profundo processo de mudanças. Hoje, descobrimos a necessidade fundamental de dialogarmos mais com a sociedade que nos certa. No sentido da palavra “dialogar”: exercício de conversação, que pressupõe a escuta, e, sobretudo, o respeito às diferenças.


Navegar é preciso, mas compreender também é preciso.

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Referências


GADAMER, Hans-Georg. O problema da consciência histórica. Rio de Janeiro: FGV, 2012.

LOVELUCK, Benjamin. Redes, Liberdade e Controle - uma genealogia da internet. São Paulo: Editora Vozes, 2018.

Sônia Meneses é professora de teoria da história na Universidade Regional do Cariri-URCA possui pós-doutorado na Universidade de São Paulo estuda as relações entre história e mídia, tempo presente, internet, ditadura Militar. Atualmente, é bolsista de produtividade do CNPQ investigando a emergência das ideias negacionistas na cena pública do Brasil e da Argentina.