• HuMANAS: Pesquisadoras em Rede

Na Manha

Arte, gênero e resistência


Andréa Gill

Isabela Souza da Silva

Marta Fernández

Tatiana Moura


Samuel Fortunato e Bruno Rubim (@alucinacaofilmes)


De que modo práticas artísticas, como o passinho, produzidas nas periferias do Rio de Janeiro, podem contribuir para transgredir os padrões hegemônicos de raça e gênero? Essa é uma das questões que movimenta o projeto GlobalGRACE, Gênero e Culturas Globais de Igualdade no Brasil.


O projeto, liderado por uma equipe de pesquisadorxs de Goldsmiths, University of London, é integrado por acadêmicxs e ONGs de Bangladesh, Brasil, México, Filipinas e África do Sul que vêm pesquisando, mobilizando, produzindo e compartilhando diferentes linguagens estéticas com potencial para desafiar cotidianamente as relações de poder dominantes e para construir sociabilidades alternativas centradas na afirmação da vida.

No Brasil, o projeto é desenvolvido coletivamente por meio da parceria entre o Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e as ONGs Instituto Maria e João Aleixo (IMJA), Instituto Promundo e Observatório de Favelas. O projeto tem como objetivo central facilitar esse encontro produtivo entre academia e ONGs, deslocando o lugar historicamente privilegiado assumido pela academia como produtora de conhecimento. Nesse encontro, a hierarquia entre saberes, científico e popular, é diariamente colocada em xeque e as periferias são reconhecidas como produtoras de conhecimento legítimo e lugar de potência. Esta convocação a um recentramento do olhar na direção de saberes produzidos por grupos sociais periferizados dialoga diretamente com o compromisso do IMJA com a superação das formas hierárquicas tradicionais de estruturação do conhecimento rumo à construção de uma Universidade das Periferias.


Tradicionalmente, as periferias foram concebidas como um “estado de natureza” marcado por um vazio cultural e artístico ou como produtores de uma cultura menor, desviada, o espaço da ausência e da carência. Estas representações convergem para a ideia que a cidade formal e seus moradorxs econômica e socialmente privilegiadxs são aquelxs que produzem conhecimento científico e expressões culturais e artísticas legítimas que devem ser transportadas para as periferias a fim de preencher o vácuo cultural existente ou mesmo corrigir/salvar/resgatar xs sujeitxs periféricxs das suas culturas tidas como atrasadas e violentas (Moura; Fernandez; Page, 2020).


Contra esse imaginário que reduz a periferia a um espaço homogêneo estereotipado, caracterizado por um vazio cultural e pela fatalidade, nosso projeto contribui para esse movimento de reorientação do olhar para a arte que é produzida, que circula, que dá sentido à vida e que resiste nas periferias da cidade. Esse olhar é, em grande medida, inspirado pelas contribuições de Jailson de Souza e Silva e Jorge Barbosa, fundadores do Observatório de Favelas, sobre o “paradigma da potência”. Enquanto as narrativas hegemônicas olham para os espaços populares e seus moradorxs a partir do “paradigma da ausência”, levando em conta o que elxs não têm, suas ditas precariedades e carências, Silva e Barbosa propõem uma forma alternativa de interpretar as práticas sociais presentes nas periferias, que valoriza sua inventividade e suas expressões estéticas variadas (Fernandes; Souza e Silva; Barbosa, 2018). É nesse mesmo sentido que Boaventura de Sousa Santos (2002: 249) propõe que as experiências produzidas como ausentes sejam libertadas dessas relações de produção e se tornem presentes, ampliando o campo de experiências credíveis existentes. O conjunto de proposições do pacote brasileiro do projeto GlobalGRACE está atento para as inúmeras possibilidades de se inventar, desde uma condição periferizada, referências próprias, modos de (re)existência que fissuram e interpelam cotidianamente as formas hegemônicas de pensar, sentir e viver.


A parceria com o Instituto Promundo nos convidou a focar no potencial transformador dessas práticas artísticas a partir das lentes de gênero, em particular a das masculinidades. Passamos a nos perguntar: como a arte produzida na e pela periferia vem produzindo subjetividades que rearticulam e subvertem cotidianamente os discursos e práticas da masculinidade hegemônica, branca e cisheteronormativa? Como intervenções artísticas e culturais perturbam o regime interseccionado de desigualdade de gênero que nos estrutura e que afeta/oprime desproporcionalmente a população negra e periferizada? Como, por meio da arte, sujeitxs negrxs, desafiam os estereótipos desumanizantes e patriarcais forjados no seio de uma sociedade racista e machista? De que forma desafiam construções estereotipadas sobre masculinidades periferizadas violentas?


Essas perguntas, contudo, não receberam respostas prontas e generalizantes fruto de monólogos mentais interiores como a academia gosta, mas foram discutidas, sentidas e partilhadas por meio de corpos pulsantes, cada qual em busca da sua manha. Essas perguntas inquietaram, (co)moveram e (co)produziram deslocamentos subjetivos e físicos num grupo de dançarinxs da Cia Passinho Carioca, dirigida por Thiago de Paula, que produziu o espetáculo Na Manha. Assina a direção geral do espetáculo o coletivo Mulheres ao Vento, liderado por Andreza Jorge e Simonne Alves, que também assinam a Direção Cênica e de movimento, e que acompanharam todo o processo criativo que incluiu uma residência formativa sobre masculinidades facilitada por elas, junto com xs pesquisadorxs do Instituto Promundo, Linda Cerdeira, Rafaela Cotta e Luciano Ramos.


Apesar da residência artística estar dividida em dois momentos diferenciados, uma residência formativa, teórica, e outra de natureza artística, prática, referente à fase de produção do espetáculo, entendemos, desde o início, esses processos como interconectados. Afinal, os ensaios artísticos também se constituíram como rodas de conversa onde na medida em que os corpos se moviam também conversavam, rearticulavam e desestabilizavam os termos e lugares (ou não lugares) que lhes foram atribuídos pela sociedade racista patriarcal capitalista. Os laboratórios de criação foram atravessados pelas demandas da pandemia global de COVID-19, que rearticulou a produção e gravação do espetáculo em forma de videodança, encenando diálogos através de cenas gravadas em forma independente dadas as restrições de distanciamento social. Assim, Na Manha permanece como uma obra-testemunha da potência inovadora das periferias, tanto em termos tecnológicos, quanto artísticos, conceituais e políticos.


O espetáculo online estreou, no âmbito do projeto GlobalGRACE, nos dias 18 e 19 de setembro no Canal Oficial da Arena Carioca Dicró onde a residência foi localizada. Mas, afinal, o que é na manha? Xs dançarinxs explicam que na gramática do passinho, manha faz referência à possibilidade de cada pessoa ter a sua “onda”, uma forma própria de se expressar e dançar. Ao reivindicarem suas manhas, xs dançarinxs estão reivindicando suas identidades, a possibilidade de dançarem, se vestirem e portarem como bem entenderem, se posicionando, dessa forma, na contramão de uma sociedade que insiste em disciplinar e regular expressões, percepções e identidades (inclusive de gênero).


Ao reivindicarem suas manhas, xs dançarinxs da Cia. Passinho Carioca, estão, por meio das suas performances, transgredindo as fronteiras de gênero internalizadas até mesmo no universo do passinho; estão desafiando as fronteiras geográficas e simbólicas de uma cidade que diz como e por onde esses corpos devem transitar e como devem performar; estão questionando os limites classistas e racistas da cidade que lhes reserva empregos precarizados e uma integração subalterna voltada para a reprodução dos interesses das classes hegemônicas. Em suma, ao performar livremente suas manhas, esse jovem grupo de dançarinxs em diálogo com duas jovens diretoras, mulheres negras e de origem popular, estão reivindicando um outro projeto de vida, de humanização, que resiste ao projeto de morte e desumanização em curso na sociedade brasileira há mais de 500 anos e instituindo a arte como possibilidade de criação de novos reais para si, suas corporeidades, suas identidades (étnico-raciais, de gênero, de classe, etárias, de sexualidade e territoriais) e suas condições materiais e simbólicas de vida - e, portanto, também trabalho.


Ao mesmo tempo em que Na Manha nomeia uma potente criação coletiva, ela expressa singularidades, uma forma única do corpo se expressar, ela dá nomes próprios a cada um dos dançarinxs, Ayesca Mayara Souza, Daniel Henrique Costa Rocha, Mayra de Farias Lima, Nayara Costa da Silva, Richard Silva dos Santos e Walcir Silva De Oliveira. Nesse processo, xs dançarinxs resistem aos lugares e papéis socialmente e violentamente construídos para seus corpos habitarem. Corpos atravessados por marcadores de gênero, sexualidade, raça, classe e território, que têm sido historicamente crimininalizados, desumanizados, despersonalizados, folclorizados, contidos e enclausurados, desestabilizam, através dos seus saberes corporais, esses rótulos e caixas que os aprisionam, genderizam e racializam. Homens negros que foram socializados, como bem nos ensina bell hooks (2004), numa cultura racista e machista que não os permitem sentir, expor suas vulnerabilidades e dos quais se exige uma masculinidade violenta, podem por meio da arte expressar uma complexidade de emoções. Se a cultura dominante produziu uma cultura de morte de jovens negros através de processos seculares de genocídio de um povo, no projeto coletivo Na Manha esses corpos são colocados disponíveis para uma cultura própria, centrada na afirmação da vida.


Entendemos nesta pesquisa-ação que enquanto se dança, se faz política, se teoriza, se questiona, se vive, se sente e se altera os regimes de visibilidade e invisibilidade que conformam nosso senso comum. Ao partirmos da centralidade e da legitimidade dos saberes e performances produzidos nas periferias, entendendo-os como produções teóricas, nos conectamos com os objetivos das organizações que fornecem as bases epistemológicas das nossas pesquisas como é o caso do IMJA/UNIperiferias, Instituto Promundo e Observatório de Favelas. E assim o projeto se insere nos movimentos decoloniais que questionam a geopolítica do conhecimento que, conforme nos conta Walter Mignolo (2003), continua a deslegitimar múltiplos saberes tidos como inválidos e desprovidos de uma racionalidade moderna/colonial. Deste modo, em seu conjunto, acreditamos que Na Manha, assim como o conjunto das ações brasileiras no GlobalGRACE, contribui de forma decisiva na disputa pelos sentidos do fazeres teórico, artístico e político, se abrindo para vozes e agendas tradicionalmente silenciadas, e tensionando as fronteiras entre saberes e entre corpo e mente tão vigilantemente mantidas pela academia.

#Masculinidades #Passinho #Potência #Arte #Descolonização

Referências


FERNANDES, Fernando; SOUZA E SILVA, Jailson; BARBOSA, Jorge. O Paradigma da Potência, Revista Periferias, n. 1, Editorial, 2018.

hooks, bell. We Real Cool: Black Men and Masculinity. New York: Routledge, 2004.

MIGNOLO, Walter. Historias locales/diseños globales: colonialidad, conocimientos subalternos y pensamiento fronterizo. Madrid: Akal, 2003.

MOURA, Tatiana; FERNÁNDEZ, Marta; PAGE, Victoria: Power from the Peripheries. Art, Culture and Masculinities in Rio de Janeiro, In: Suzanne Clisby, Mark Johnson, e Jimmy Turner (eds), Theorising Cultures of Equality, Routledge, 2020.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências, Revista crítica de ciências sociais, n. 63, 2002.


Andréa Gill é professora do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio. Doutora em Ciência Política e Pensamento Cultural, Social e Político pela University of Victoria, e pesquisadora pós-doutora da redeGlobalGRACE. Pesquisadora associada do Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente, e pesquisadora docente da UNIperiferias.










Isabela Souza da Silva é Doutoranda em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e é Bacharel em Turismo pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Isabela nasceu e cresceu na Maré e desde 2011 é parte da equipe do Observatório de Favelas.









Marta Fernández é Professora Adjunta do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e pesquisadora do Projeto Internacional GlobalGRACE (Global Gender and Cultures of Equality). Suas principais áreas de interesse se concentram em: Estudos Pós-Coloniais e Decoloniais, Estética, Violência e Resolução de Conflitos.










Tatiana Moura é investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Coordenadora do Promundo Portugal e Diretora Associada do Instituto Maria e João Aleixo (Maré, Rio de Janeiro, Brasil). Entre 2011 e 2019 foi Diretora Executiva do Instituto Promundo (Rio de Janeiro, Brasil).

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