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Não queremos mais ver sangue do filho de ninguém no chão da favela: entrevista com Bruna Silva

Nina Zur


Foto: Katja Schilirò | Arquivo pessoal


Conversei com Bruna Silva [1], ativista do conjunto de favelas da Maré e mãe do menino Marcus Vinícius, executado aos 14 anos em operação policial na Maré em junho de 2018. A seguir, o nosso papo sobre violência letal de Estado, políticas públicas de proteção à infância, ação política e movimentos de mães e familiares vítimas de violência estatal. Agradeço a Bruna pela generosidade e pelo exemplo de força e resistência.

NZ: Seu filho estava a caminho da escola quando foi executado. A imagem do uniforme escolar manchado de sangue é muito forte. E pode ser, também, uma representação de como a infância das crianças negras, pobres e moradoras de favela é tratada no Rio de Janeiro, muitas vezes interrompida de forma brutal.

Não é sofrido demais para você “levantar essa bandeira”?

Qual a importância de carregar o uniforme nas lutas? Você, alguma vez, pensou em guardá-lo?


BS: Eu me lembro que, assim que cheguei na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) aqui da Maré, um enfermeiro jogou nos meus braços a blusa e o tênis que meu filho sempre usou para ir à escola. Eu abri aquela blusa, pois queria entender a dinâmica daquele tiro. Ao abrir, vi uma mancha de sangue. Era o sangue do meu filho, era o meu DNA. Fiquei agarrada com ela. Às 18h35 meu filho foia óbito.


No dia seguinte, no Instituto Médico Legal, apresentei aquele uniforme manchado de sangue. No começo foi difícil carregá-lo, e hoje se tornou a minha bandeira de luta, de resistência. Ele me dá forças para avançar na militância. Até hoje eu o tenho comigo, não o solto por nada.


Hoje, eu olho para a blusa da escola e vejo o que o Estado fez. E eles não farão de novo. O Estado não vai devolver a minha única filha, Maria Vitória, de 14 anos, do mesmo jeito que entregou o irmão dela. Seja para qual ato for, eu levo a camiseta comigo. É na rua que eu esfrego na cara da sociedade o tratamento que nos é dado aqui nas favelas.


Não podemos aceitar que nossos filhos e filhas percam a vida. Mãe não foi feita para enterrar filho, isso vai contra a lógica da vida, os filhos é que devem enterrar seus pais. Nossos filhos deveriam ser blindados para que mal nenhum os tocasse.


Meu filho foi morto pela Polícia Civil com roupa e material da escola. Eu sempre cobrei os estudos dos meus filhos, cobro da irmã dele até hoje.

Para a polícia, tanto faz se é estudante, traficante, morador, para eles todos nós somos o alvo. O corpo pobre, o corpo negro e favelado. Somos minoria para eles. O Estado, que deveria nos proteger, é quem nos mata.



NZ: Após o assassinato da menina Ágatha Felix, em setembro de 2019, representações de uniformes manchados de sangue foram expostas em frente ao Palácio Guanabara para denunciar 17 execuções de crianças, pela polícia, no estado do Rio de janeiro a setembro daquele ano.

Como não precisar mais produzir esse tipo de imagem, como não precisar mais lutar para garantir um direito tão básico que é o direito à vida da população?


BS: A gente sabe que o Ministério Público (MP) é um órgão que não mata ninguém diretamente, mas é omisso. Nós, mães, vivemos cobrando do MP, dizemos a eles que é preciso monitorar as operações policiais de perto. Eles têm poder para isso, atuam no controle externo da atividade policial. Não é só autorizar uma operação, é preciso monitorar.


É preciso que os agentes usem câmeras acopladas nas fardas, nas viaturas tem sempre que haver monitoramento também. Isso preservaria um pouco as nossas vidas e, até mesmo, a vida dos agentes.


É preciso, também, que todo policial que mata seja responsabilizado pelos seus atos. Eles trabalham com armas de fogo, têm treinamento de guerra, fazem um juramento que é defender vidas, mas, na prática, o Estado atua em contrário.


Nesse ato, em que penduramos vários uniformes de escola pública na porta do Palácio, tentamos mostrar que a matança, como a da menina Maria Eduarda, morta aos 13 anos por tiros de fuzil dentro da escola, em Acari, durante uma operação policial no bairro, e a do meu filho, não parou mais. Olha quantas crianças e jovens foram mortos por quem deveria protegê-los e abrigá-los!



NZ: Você acha que, de alguma forma, serviu de exemplo, espelho e apoio para outras mães que, muitas vezes, não têm essa mesma força?


BS: Não cai uma folha da árvore que Deus não permita. Deus me deu, Deus tomou.

Eu não perdi meu filho, Deus pegou o que já era dele muito antes de ser meu. Hoje sou a mãe de um anjo chamado Marcus Vinicius, é através dele que eu consigo ajudar muitas mães. Hoje eu me vejo no meu lugar de fala, por meio dele eu me faço presente na vida de cada uma delas. Não queremos que venham mais mães nascidas da dor.


Depois da morte do meu filho, me joguei na luta ajudando a dar voz ao conjunto de favelas da Maré, ajudando a dar voz a essas mães que, infelizmente, não conseguem mais reagir. Somos a voz daquelas que têm boca mas não têm a oportunidade de falar, porque, muitas das vezes, a mídia burguesa não as escuta.


Hoje, eu digo aos moradores o seguinte: todas as vidas importam, não vamos aceitar que nossos filhos e filhas sejam mortos pelo caminho, não queremos mais ver sangue de filho de ninguém no chão da favela.



NZ: Em junho de 2020, a execução do Marcus Vinicius fez dois anos. À época, o Rio de Janeiro passava por intervenção federal militarizada em sua política de segurança pública.

Você acha que as violências de Estado aumentaram no complexo de favelas da Maré, onde você vive, de lá para cá, com o governo Witzel?


BS: O meu filho foi a primeira criança morta nessa intervenção, que só interviu com vidas perdidas. De lá pra cá, só piorou, com esse governador desgovernado, que deu ordem para matar, sem me esquecer do presidente que facilitou a posse de armas de fogo para a população nobre do Rio de Janeiro.



NZ: Como ficou/está a situação do complexo de favelas da Maré durante a pandemia?


BS: Aqui na Maré, ficamos mais tranquilos depois do julgamento das medidas cautelares da nossa ADPF das favelas, a ADPF 635. Agora eles não fazem tantas operações como antes, pelo menos aqui na Maré porque, em outras áreas, eles continuam entrando e matando traficantes, moradores e crianças. Todos nós somos alvos do Estado.



NZ: A deputada Talíria Petrone protocolou o Projeto de Lei (PL) 3873/2019, que busca mecanismos e ações integradas para reduzir violência letal contra crianças, adolescentes e jovens, com o nome do seu filho, o PL Marcus Vinícius. O que isso significa para você?


BS: Esse PL significa muito para mim e para todos nós que precisamos de leis que garantam a vida dos nossos filhos. É preciso garantir o direito de ir e vir de cada criança, é preciso cuidar e zelar pelas nossas forças do amanhã.



NZ: Qual a importância de representantes como Talíria, negra, mulher, professora da rede pública, ocupando espaços institucionais?


BS: Eu consigo dormir sabendo que temos mulheres como Talíria. É preciso que venham mais Talírias, é preciso ocupar cada espaço, é preciso lembrar que ainda temos pessoas que falam e fazem em favor do povo menos favorecido.



NZ: Por fim, o que você diria às mães e às famílias que estão perdendo filhos e entes queridos por ação e omissão do Estado nesse momento?


BS: Nossos filhos tinham e têm mães, nossos filhos têm voz. É do luto para a luta. O luto é verbo para nós, é na luta que a gente se encontra. Nossos filhos ainda vivem em nós, ainda somos as mães de nossos filhos. Eu costumo dizer que somos mães unidas na terra com filhos felizes no céu.

Notas


[1] Bruna Silva é moradora do conjunto de favelas da maré. Tecedora, mobilizadora e integrante do Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça na Redes de Maré, é ativista militante por direitos humanos e defensora da vida. É mais uma mãe nascida da dor.

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Nina Zur é mestranda em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela PUC Rio, vinculada à linha de pesquisa em Teoria do Direito, Ética e Construção da Subjetividade. Escreve e é mãe do Santiago, de 1 ano.


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