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Mulheres negras e prostituição no Rio de Janeiro da Primeira República


Beatriz do Nascimento Prechet


Maria Lídia Magliani, "Fábula" (2010), xilogravura, 23,2 X 32,7cm



Na Rua do Senhor. O Rio Nu, 23 de setembro de 1899, ed. 127, p. 1


Divulgação da pesquisa: PRECHET, Beatriz do Nascimento. Enegrecendo o meretrício: experiências da prostituição no Rio de Janeiro (1871-1909). Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro, PUC, 2019. Pesquisa realizada sob a orientação do Prof. Dr. Leonardo A. de Miranda Pereira e a co-orientação: Profª Drª Cristiana Schettini. Financiamento: CAPES.

É a partir do 14 de maio de 1888, um dia após a abolição, que vemos crescer, sob o signo da liberdade, um grande contingente de sujeitos negros circulando pelas ruas das cidades. No entanto, ainda que a escravidão tivesse findado com a assinatura da lei Áurea, determinadas práticas, pensamentos e costumes não mudariam rapidamente.


A charge ao lado, publicada no jornal O Rio Nu, retrata uma cena que se tornaria recorrente nos anos que se seguiram após a abolição. Este jornal, famoso por retratar cenas do cotidiano, contava com um característico humor sarcástico para explanar a vida alheia, principalmente das mulheres que viviam no meretrício, reforçando de tal forma os preconceitos de raça, classe e gênero, elementos fundadores da sociedade que se formava.


Repleto de elementos gráficos bastante sugestivos, o desenho satiriza a prostituição de mulheres negras, ensejando a compreensão dos enunciados e das dinâmicas sociais que organizavam o cotidiano da época, os quais foram condensados nesta representação de maneira astuta e eficiente pelo artista. O número da casa, que nos remete a uma posição sexual, dificilmente performada por mulheres da boa sociedade – a quem o prazer sexual era negado e cujo papel social restringia-se à procriação no interior da instituição matrimonial –insinua ser ali uma casa onde sabia-se haver prostitutas, afinal, eram as mulheres de “vida airada”, que serviam para a manutenção de um lar seguro e a satisfação sexual do homem (Soihet, 1989).


Além disso, o título do desenho refere-se à Rua do Senhor, que a historiografia e as diversas publicações em jornais nos confirmam ser a rua Senhor dos Passos, local de grande concentração de mulheres negras vivendo da prostituição. Outro elemento importante é a forma como o sujeito se identifica e como reage enfurecidamente ao ser contrariado. Aparentemente bem apessoado, o homem esperava outro tipo de mulher sendo a patroa. E, levando em consideração o momento da publicação, não foi por acaso retratá-la, no segundo quadrinho, numa posição submissa, de joelhos, como quem pede perdão pelo infortúnio do visitante.


Mesmo que tudo isso já fosse o suficiente para termos uma ideada situação das negras no ambiente do meretrício, o jornal salienta mais um elemento, fundamental para compreendermos o lugar onde estas mulheres foram colocadas: a personagem não usava sapatos, numa referência direta ao período da escravidão, quando os calçados serviam para distinguir os cativos daqueles que já eram livres. Isso então nos leva a dois caminhos possíveis: o primeiro deles é que, mesmo que a publicação date de 1899, poucos anos após a abolição, o imaginário social ainda via as mulheres negras enquanto escravas e, por isso, seria inaceitável que fossem proprietárias de algo. O segundo caminho nos leva a pensar que esta charge estava ali não somente para entreter e divertir a uns e outros, mas sim para reforçar o racismo que estruturava aquela sociedade e também alertar os leitores da boa sociedade, que tomassem cuidado ao buscarem pelos prazeres da carne.


Além do mais, a negação furiosa do visitante, também pode ser entendida como uma crítica aos novos tempos. Pois com o fim da escravidão, situações como estas poderiam tornar-se comuns, abalando desta forma uma estrutura estrategicamente construída e amparada numa ciência, traduzida e difundida pelo discurso médico, que fazia crer que os corpos negros eram inferiores, propensos à sexualidade e ao mundo do crime por uma condição hereditária (Engel, 1989). O que nos permite concluir que para uma mulher negra se estabelecer dentro da dinâmica do meretrício, ela precisaria enfrentar inúmeras dificuldades.


Uma delas era encontrar algum tipo de permissão para praticar o meretrício onde a clientela estivesse. Porque diferentemente das mulheres de outras nacionalidades, que podiam até mesmo ser vistas nos jardins dos teatros, as mulheres negras sofreram com as perseguições policiais que buscavam mantê-las longe dos símbolos da modernidade da cidade carioca, como os cafés e os bondes.


Às prostitutas negras foi destinado o espaço da clandestinidade e dos amores proibidos. Não bastasse isso, suas trajetórias foram silenciadas pela construção de um imaginário onde a prostituição era europeia, composta majoritariamente por francesas e polacas. O que nos aponta para uma das contradições da sociedade republicana, no que se refere à questão da prostituição.


O fato de que investiam na construção de uma imagem ideal da prostituta, amplamente publicizada pela da circulação dos jornais, principalmente o Rio Nu, mas também O Paiz e a Gazeta de Notícias, torna evidente que não era a prostituição o problema em si, muito menos era ela quem desmoralizava a sociedade. O que desagradava e precisava ser combatido, era a presença de um tipo de prostituta que participava do meretrício: as negras.


Nesse sentido, é nítido que a prostituição continuaria sendo um elemento constitutivo da sociedade republicana, pois o que estava em questão, era somente a presença das prostitutas negras e, uma vez que estas fossem retiradas de circulação ou, pelo menos dos espaços mais movimentados da cidade, o meretrício continuaria a existir conforme suas próprias regras, numa relação por vezes conturbada entre a legalidade e a moralidade.


O resultado do esforço de manter a prostituição negra longe do centro urbano culminou na territorialização do Mangue (Caulfield, 2000), enquanto o local destinado a prostituição considerada decadente. Ao serem retratadas como propagadoras de doenças e sujeitadas aos estereótipos do gênero, as prostitutas negras foram invisibilizadas mesmo dentro de um grupo já marginal. Contudo, ao olhar atento aos preconceitos raciais, é possível enxergar esses corpos e marcar a presença deles num espaço que foi construído e reconstruído para que não fosse ocupado por estas mulheres. O que nos resta então, é considerar o resgate destas trajetórias, desinvisibilizando e ressignificando um passado tradicionalmente negado.

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Referências


CAULFIELD, Sueann. O nascimento do Mangue: raça, nação e o controle da prostituição no Rio de Janeiro, 1850-1942. Tempo, n. 9, julho de 2000.

ENGEL, Magali. Meretrizes e doutores: o saber médico e a prostituição na cidade do Rio de Janeiro. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.

PRECHET, Beatriz do Nascimento. Enegrecendo o meretrício: experiências da prostituição no Rio de Janeiro (1871-1909). Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro, PUC, 2019.

SOIHET, Rachel. Condição Feminina e Formas de Violência. Mulheres Pobres e Ordem Urbana (1890-1920). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1ª edição, 1989.


Beatriz do Nascimento Prechet possui graduação em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Tem interesses nos seguintes temas: Prostituição, História das Mulheres, Mulheres Negras, Feminismo, Rio de Janeiro, Primeira República.


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