• HuMANAS: Pesquisadoras em Rede

Getúlio Marinho da Silva comemora com a República

Macumba, carnaval e protagonismo negro no pós-abolição


Fernanda Epaminondas Soares


Getúlio Marinho no auge de sua carreira.

(Imagem: Coleção José Ramos Tinhorão – Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro)


“(...) sou nascido a 15 de novembro de 1889, em Salvador, portanto republicano cem por cento.” (Getúlio Marinho da Silva para o “Correio da Manhã” de 1958)

Em 15 de novembro de 2020, o músico, compositor e mestre-sala baiano Getúlio Marinho da Silva completaria 131 anos de vida.


Apelidado de “Amor” desde a infância, Getúlio veio para o Rio de Janeiro, a então capital da República, com seis anos de idade acompanhado de seus pais: Paulina Teresa de Jesus e Antônio Marinho da Silva, ou o “Marinho que Toca”, também músico. Foi com ele que certamente Getúlio tomou contato com o mundo da música e do carnaval, já que desde que chegara na capital carioca, ainda menino, passou a integrar diversos ranchos carnavalescos.


Getúlio também era instrumentista e teria sido grande tocador de omelê, antiga cuíca. Com Hilário Jovino Ferreira, grande liderança negra e baiana no Rio de Janeiro, “Amor” aprendeu a coreografia dos mestres-sala dos ranchos carnavalescos, tornando-se um grande especialista. Tanto que, em 1916, iniciou a carreira artística como dançarino na revista “Dança de Velho”, apresentada no Teatro São José.


No mundo do Carnaval, “Amor” continuou desfilando em diversos ranchos carnavalescos e, para além das festas que organizava e dos amigos que fazia, Getúlio Marinho explorou outros campos desse universo. Em setembro de 1934, o “Correio da Manhã”, “O Paiz”, o “Diário Carioca”, o “Jornal do Brasil”, “A Noite” e “O Globo” noticiavam que uma nova diretoria havia sido eleita para administrar a União das Escolas de Samba (UES). Entre os cargos de presidente, vice-presidente, secretários, tesoureiros e procuradores, Getúlio Marinho da Silva foi eleito primeiro secretário.


A UES era uma entidade fundada para organizar as escolas de samba e incentivá-las a se registrarem como sociedades recreativas. Como membro da diretoria da União das Escolas de Samba, Getúlio Marinho era presença em diversas festas e homenagens relacionadas ao mundo do carnaval, mas foi em 1940 que ele ganhou ainda mais destaque nas páginas dos periódicos quando foi ele eleito o “Cidadão Samba”. Esse personagem era considerado aquele que de fato representava a população dos morros cariocas, a escola de samba, os sambistas.


Amor ganhou esse título por cinco carnavais consecutivos e por onde quer que ele passasse, estava cercado de carnavalescos, jornalistas e outras figuras que, em diferentes momentos de sua vida, ajudaram a ampliar suas redes de contato através do samba, do carnaval e da indústria fonográfica.


Na fonografia, teve sua primeira música gravada já nos anos de 1930: o samba Não Quero Amor, pelo Conjunto Africano, na “Odeon”. Ao longo dessa década em diante, Getúlio registrou diversas músicas de variados gêneros musicais.


Em sua vida particular, desde a infância, o músico frequentava as casas das tias baianas, como Ciata, Calu Boneca e Bebiana, assim como também estava nos terreiros, conhecendo líderes religiosos famosos, como João Alabá, Assumano e Abedé.


Com sua vivência no universo afrorreligioso, Getúlio Marinho foi o responsável por gravar “pontos de macumba” em disco, registrando várias músicas rituais das tradições afro-brasileiras, ricas em percussão e outros elementos comuns dos cultos, como clamores e palmas.


Ponto de Inhassan e Ponto de Ogum foram os dois primeiros “pontos de macumba” gravados no Brasil com a parceria de Eloy Anthero Dias, grande liderança negra e um dos fundadores da escola de samba Império Serrano. Apesar das afrorreligiosidades já estarem presentes no disco desde antes de Getúlio Marinho e Mano Eloy, a inovação estava no estilo e no novo gênero musical.


As obras gravadas pela “Odeon” marcavam, pela primeira vez em chapa fonográfica, pontos rituais de cultos afro-brasileiros. Uma das interpretações para esse fenômeno está em entender que a indústria fonográfica assumia nova etapa frente à produção musical de diversos músicos, nesse caso, de músicos negros. Assim, o gênero “macumba” foi uma conquista desses artistas, que tiveram suas “macumbas” e/ou “pontos de macumba” reconhecidos como tais.


Essa conquista certamente foi fruto das negociações dos músicos com a indústria fonográfica, nas quais Getúlio Marinho teve papel fundamental, inclusive movimentando esse setor de variadas formas, desde a sua atuação no Carnaval até a apadrinhar e apresentar novos intérpretes à indústria fonográfica para cantar suas macumbas, como J.B. de Carvalho e Moreira da Silva.


Getúlio Marinho, ao mesmo tempo em que era famoso por ser um múltiplo artista e estreitar laços com os jornais, sendo bastante comum encontrá-lo circulando pelas redações cariocas, em sua vida privada, diferente do glamour dos holofotes, era também um homem comum que trabalhou como funcionário público no cargo de servente da Inspetoria dos Serviços de Profilaxia do Departamento Nacional de Saúde Pública durante muitos anos.


As ambiguidades entre o sucesso e a vida do homem negro de sua época que não acumulou posses foi destino semelhante ao de diversos outros músicos negros famosos de seu tempo. No caso de Getúlio Marinho, as notícias sobre sua morte causaram pouco alarde da imprensa e sua trajetória foi praticamente apagada.


Nascido um ano depois da abolição da escravatura e no dia da proclamação da República, a vida de Getúlio Marinho já valeria algumas reflexões. A afirmativa de ser “republicano”, frase que inicia esse texto, possivelmente não se dava apenas pelo fato de ter nascido no dia da proclamação da República. Além disso, é interessante notar que, mesmo já no ano de 1958, data que a entrevista foi publicada, para ele ainda era importante afirmar que era republicano.


Essa declaração, inserida no contexto em que Getúlio viveu, tem grande significado. Ser republicano para ele era ser a favor do novo sistema, o mesmo em que o negro não era mais escravizado e não era obrigado às sujeições de um senhor. Ser republicano correspondia a defender a liberdade e ser contra à escravidão. Mesmo já beirando os anos de 1960, era importante, pela sua trajetória familiar e de vida, afirmar-se politicamente em prol da República.


Foi também com a república que se separou a Igreja do Estado. E, segundo Maria Tereza de Mello (2008), a noção de república brasileira crescia em contraste com o passado monárquico. Nas fontes da época, ficava nítida a concepção do binômio monarquia e república com significados antônimos.


Para a monarquia era recorrente o uso de palavras como tirania, apatia, atraso, teologia e centralização. Já para a república, dava-se a ideia de liberdade, cidadania, progresso, federalismo e ciência. A monarquia era sinônimo de passado e a república de futuro.


Nesse sentido, aos 131 anos de seu nascimento, é importante que resgatemos sua memória e que sua história saia do silenciamento. É sobre sua trajetória que trata a dissertação “Fui o criador de macumbas em discos”: Macumba, Samba e Carnaval pela trajetória de Getúlio Marinho da Silva (Rio de Janeiro, 1895-1964), defendida por mim em 2016 no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense que, no mesmo ano, venceu o Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular (CNFCP/IPHAN) e, em breve, será lançada em livro pela editora CRV.


“Amor” faleceu em 31 de janeiro de 1964, aos 74 anos e foi uma importante liderança negra, uma vez que se inseriu na modernidade de seu tempo, ocupando espaço, sendo protagonista de sua própria história e precursor de muitas conquistas.

#PósAbolição #Música #ProtagonismoNegro

Referências


MELLO, Maria Tereza Chaves de. A Modernidade Republicana. Revista Tempo, nº 26, 2008.

SOARES, Fernanda Epaminondas. “Fui o criador de macumbas em discos”: Macumba, Samba e Carnaval pela trajetória de Getúlio Marinho da Silva (Rio de Janeiro, 1895-1964) – Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, 2016.


Fernanda Epaminondas Soares é doutoranda em História Social pela UFF, também é mestra, bacharel e professora formada pela mesma universidade. Sua dissertação, cuja pesquisa foi sobre Getúlio Marinho, foi a vencedora do Concurso Sílvio Romero (Museu do Folclore/IPHAN) no mesmo ano de sua defesa, 2016. Em breve, seu trabalho será publicado em livro.