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Fim à dominação masculina na história


Daiane Machado


Mona Lisa no cartaz da edição de 2018 dos Rendez-vous de l’histoire de Blois. Imagem capturada no site do jornal Le Monde, na publicação original deste manifesto.


Tradução da tribuna do jornal Le Monde intitulada: L’appel de 440 historiennes françaises : « Mettons fin à la domination masculine en histoire ».

Com um título forte,[1] certeiro em seu alvo, um grupo de historiadoras inicia o texto manifesto que recoloca sob a mesa o tema da desigualdade de gênero existente no seio da história enquanto disciplina. Uma situação persistente, apesar de conquistas consideráveis, como vemos nas estatísticas que pautam seus argumentos e que fundamentam suas proposições didaticamente listadas no final.


O texto que traduzimos foi publicado originalmente por um jornal francês de grande circulação, dias antes do início do encontro “Rendez-vous de l’histoire de Blois”, o Le Monde lançou em sua tribuna o texto intitulado: O chamado de 440 historiadoras francesas: “Fim à dominação masculina na história”. O evento, programado para acontecer entre 10 e 14 de outubro de 2018 na cidade de Blois, já entrou para o calendário dos grandes encontros dedicados à História na França. Como uma grande vitrine do microcosmo do mundo acadêmico, Blois exibe o lugar destinado às historiadoras: timidamente representadas nas grandes conferências, com menor presença nas estantes de livros à venda e nas premiações e, na qualidade de avaliadoras, com suas vozes espaçadamente ouvidas. Blois é, assim, um dos sintomas de um diagnóstico conhecido, embora insuficientemente reconhecido.


Esta tribuna, ensaiando fazer um balanço das adversidades enfrentadas pelas mulheres em diferentes etapas da carreira, instiga todas e todos à responsabilidade, a tomarem parte no trabalho coletivo de reversão desse diagnóstico.


Desejando que as historiadoras brasileiras se solidarizem com suas colegas francesas e que, por sua vez, possam contribuir com o debate a partir do diagnóstico de sua realidade, é que traduzimos o texto a seguir.[2]

Uma indignante e inspiradora leitura!


Tribuna


Como todos os anos, a comunidade historiadora inaugura seu salão do livro. Os encontros chamados “Rendez-vous de l’histoire de Blois” são, inicialmente, como diz o folder, uma “gigantesca livraria” de história, em que se agrupam centenas de editores e de autores que vêm encontrar seus leitores. De ano em ano, esse evento se impõe como um momento único de visibilidade conferido à produção e à pesquisa histórica: ele conta com stars,[3] convidados e intrusos, além de jantares e conferências lotadas.


Logo de início, se não empregamos a escrita inclusiva, é porque no fundo ela é desnecessária aqui. A visibilidade do livro de história é marginal em relação às historiadoras, à imagem imprecisa do rosto de Mona Lisa no cartaz do festival. É verdade, muitos caminhos foram percorridos graças aos colegas que nos precederam: a paridade progride no interior das manifestações, das comissões preparatórias e das bancas de seleção.


A associação Mnémosyne, que milita pela história das mulheres e do gênero, obteve pela primeira vez, em 2010, o direito de organizar uma mesa redonda. Contudo, essa grandeza simbólica não é compartilhada no salão do livro, o qual é predominantemente masculino, como ocorre com o emblemático e quase sistemático “Grande prêmio dos Rendez-vous de l’histoire de Blois” (dezoito homens premiados para três mulheres, proporção comparável ao prêmio do livro de história do Senado – quatorze homens premiados para duas mulheres).



Um sintoma


Blois é apenas um sintoma, aquele da persistência da dominação masculina em um contexto de feminização progressiva, mas frágil, do corpo acadêmico. Se ela se articula solidariamente com outras lutas cuja urgência se impõe hoje com força, sobretudo contra o assédio sexual e contra todas as discriminações, a resistência a essa forma de dominação responde à mesma necessidade.


Nas ciências humanas, as mulheres representam quase a metade do corpo de mestres de conferência, contra apenas 29% no quadro professoral e 25,5% em postos de direção de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS).[4] Além disso, as mulheres tornam-se professoras de universidade com uma idade mais avançada e com uma diferença salarial constatada de aproximadamente 1.000,00 euros ao final da carreira. A dominação masculina no campo historiográfico é palpável, sobretudo nos espaços de visibilidade e de poder acadêmico: as direções de publicação, as revistas, as coleções e os lugares de prestígio (no Collège de France, três historiadoras para doze historiadores, somente um terço de diretoras em estabelecimentos de pesquisa francês no exterior etc.). Enfim, o predomínio masculino é esmagador nas grandes coleções de história que dão visibilidade aos trabalhos de pesquisa: por exemplo, dos 219 livros publicados na coleção “Bibliothèque des histoires” da editora Gallimard, 16 são assinados por mulheres; na “L’univers historique”, da Seuil, são 28 livros publicados por mulheres para 199 assinados por homens.



Discriminações “indiretas”


Certamente, a posição subalterna das historiadoras é parcialmente fruto de discriminações “indiretas”. Elas respondem com menor frequência que os homens às solicitações das instituições, são menos numerosas no concurso de agregação ou de Habilitação a dirigir pesquisas (HDR),[5] candidatam-se mais timidamente às chamadas de comunicação e publicação. Frequentemente, elas mantêm-se reservadas à ideia de pronunciar-se nas mídias.


Então? As mulheres seriam, portanto, as primeiras responsáveis pela sua marginalização acadêmica? Tal raciocínio se choca com uma realidade incontestável: se as mulheres publicam menos é, antes de tudo, porque seu tempo não é o mesmo dos homens. Ainda que conheçamos colegas masculinos no mesmo nível de paridade doméstica, nossa sociedade impõe largamente a responsabilidade do cuidado da célula familiar – os filhos, mas também os pais idosos – às mulheres.


Na universidade, essa situação também se traduz pelo engajamento intenso em relação aos estudantes, os quais, como sabemos, demandam muito tempo. De todo modo, o tempo das mulheres é contado. Estatisticamente, seus dossiês registram menor número de publicações que os dos homens de mesma idade, menos participações em colóquios que exigem deslocamentos e, ainda, poucas missões prolongadas em arquivos ou em pesquisa de campo.


Comissões de seleção e bancas de concurso


Se podemos dizer que as coisas mudam, ainda que lentamente, resta uma última ironia: quando nossos colegas masculinos evocam seu investimento nas tarefas domésticas, eles veem seu prestígio aumentar – ao contrário de suas congêneres que ninguém se preocupa em felicitar.


Como reagir a esses fatos? Nós não pretendemos responder a essa questão de maneira definitiva e sem dúvida nossas proposições não são inéditas – mas as historiadoras e os historiadores sabem o quanto a repetição testemunha aquilo que não foi escutado. É por essa razão que hoje convidamos nossos colegas e nossas instituições a se engajarem em vários pontos:

Defender a representação igualitária das mulheres nos comitês de recrutamento e bancas de concursos, em que a lei a impõe, assim como nas diferentes instâncias de seleção da pesquisa. Essa igualdade implica também os júris de prêmio, os comitês de organização dos colóquios e as obras coletivas, sem rigidez, mas com vigilância.
Modificar os critérios de avaliação: nós defendemos a excelência, mas a compreendemos mais qualitativamente do que quantitativamente. Mais que o número de artigos publicados em uma determinada data, nós valorizamos sua qualidade e originalidade ou, ainda, a capacidade de explorar novos temas ao longo de uma carreira.
Levar em conta as adversidades específicas das carreiras femininas: a recusa em entrar na vida privada das mulheres para apenas sublinhar as “lacunas” em seus currículos é uma atitude eminentemente hipócrita e uma escolha política. As mulheres têm, particularmente, necessidade de uma licença para pesquisa (CRCT),[6] no momento chave de preparação de sua HDR, e de espaços acadêmicos em que elas possam dedicar-se inteiramente à redação. Poderiam ser visadas, junto ao Conseil National des Universités (CNU) e às universidades, licenças especiais para a carreira feminina.
Lutar contra a invisibilidade em todos os níveis: no ensino, oferecer aos estudantes e às estudantes a leitura de textos de historiadoras; nas instâncias acadêmicas, encorajar as candidaturas femininas; nos concursos de seleção, assegurar que os avaliadores, notadamente no exame oral, não reproduzam sistematicamente os antigos reflexos que tendem a privilegiar a confiança em si sob a expressão da dúvida.
Encorajar as mulheres jovens a investirem na carreira: doutorandas, jovens mestres de conferência e pesquisadoras precisam ser apoiadas, inseridas em redes, sempre tão determinantes no campo, encorajadas a apresentarem seus textos em colóquios e, particularmente, a publicá-los.
Por fim, nós convidamos a todos nossos colegas a se tornarem solidários: como alguns já fazem, eles podem se recusar a participar de mesas-redondas ou de obras compostas quase que exclusivamente de homens. Eles podem ficar atentos à distribuição paritária das tarefas pedagógicas junto aos estudantes e às estudantes; podem contribuir com a evolução dos critérios de avaliação das carreiras nas instâncias em que participam; não encorajar o acúmulo masculino de posições dominantes no campo acadêmico, assim como solicitar regularmente a suas colegas indicações de historiadoras competentes em tal ou tal domínio. Essa vigilância deve se estender aos editores e aos responsáveis por emissões de rádio e de televisão. Enfim, ela deve ser, sublinhemo-la, a dos homens, mas também a das mulheres, para as quais o a priori favorável aos homens nem sempre é visada.

Nossa tribuna não é uma lamentação, ela visa ao futuro. Entre nós, muitas têm belas carreiras, mas ao preço de lutas tenazes. Nós queremos que a história se torne cada vez mais um empreendimento de todas e todos, que as novas gerações possam partilhar e estabelecer trocas e que, afora as diferenças de sexo, que elas também possam produzir, coletiva e amigavelmente, uma narrativa mais densa do passado, pois nutrida de múltiplas experiências.

Notas


[1] Agradeço as autorizações da Associação Mnémosyne, de Pascale Barthélémy (ENS Lyon) e de Armelle Enders (Université Paris VIII) para traduzir este manifesto.

[2] Meu obrigada a Meriele Miranda, Doutora em Littérature française et comparée na Université Paris IV, pela revisão da tradução.

[3] O termo stars abrange tanto personalidades do mundo intelectual quanto personalidades políticas.

[4] Uma vez “Mestre de conferência” e titular de uma Habilitation à diriger des recherches (HDR) o próximo degrau na hierarquia acadêmica é ser nomeado “Professor de universidade”. Mais informações podem ser encontradas nesta página.

[5] O concurso de agrégation seleciona os professores de segundo grau, já o concurso de HDR é um título acadêmico que autoriza a candidatar-se a um posto de professor de universidade, a orientar e ser avaliador de teses. (N.T.)

[6] O Congé pour recherches ou conversions thématiques (CRCT) permite que o professor-pesquisador se dedique à pesquisa por um período de seis ou doze meses. (N.T.)

#Manifesto #DesigualdadeDeGênero #História


Daiane Machado é doutora e pós-doutora em História pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Com apoio da FAPESP (2017-2021), realizou estágio de pós-doutorado em História no Institut d´Histoire du Temps Présent (BEPE 2018-2019), Paris. Tem trabalhos nas áreas de história da historiografia, história intelectual e estudos de gênero.

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