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Em toda a Espanha, o céu está sem nuvens


Fernanda Bana Arouca


Cartaz da Guerra Civil Espanhola, de autoria de José Maria Gallo



A minha linhagem materna é espanhola.[1] Andaluza, me apresso a esclarecer. Linhagem essa costurada por Francisca Heras, minha bisavó, que tive o privilégio de chegar a conhecer. Cresci assistindo touradas antes de dormir (que me atormentam até os dias de hoje), comendo puchero e as tortillas de patatas especiais da minha avó, entre siestas e boleros, sempre com a vaga ideia de que a Espanha era um lugar longínquo, mas que de alguma forma me pertencia. Mais tarde essa conexão se formalizou: a Lei da Memória Histórica, de 2007, fez da minha mãe cidadã espanhola, uma medida que também me contemplou. Essa foi uma tentativa de reparação do Estado Espanhol às vítimas da guerra civil — que assolou o país entre os anos de 1936 e 1939 — e da ditadura de Francisco Franco, bem como aos seus descendentes.


Foi com esse pano de fundo profundamente familiar que li durante a pandemia Mulheres Livres, escrito em 1991 pela cientista política estadunidense Martha A. Ackelsberg e publicado no Brasil somente em 2019 pela Editora Elefante, com tradução de Júlia Rabahie (2019). O mote central da obra é apresentar a organização anarquista Mujeres Libres, dirigida por mulheres e para mulheres, que atuou durante a guerra civil e reuniu integrantes de norte a sul do território espanhol, fossem elas catalãs, galegas ou andaluzas, comprometidas com a superação da subordinação feminina em suas diversas instâncias.


Os leitores que se comoveram com A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch (2016), — como foi o meu caso — terão aqui mais uma vez a oportunidade de acessar testemunhos sobre conflitos violentos que escapam narrativas tradicionais, canônicas e absolutamente masculinas, lançando luz sobre outras formas de experienciar a guerra. A partir de entrevistas e correspondências, Ackelsberg resgata a história de militantes que viam a educação como a forma essencial para libertar as mulheres e também se propunham a capacitá-las para que substituíssem os homens que haviam marchado para o front. É ainda uma obra panorâmica, pois coloca em perspectiva o espaço que as trabalhadoras espanholas ocupavam dentro do movimento anarquista desde sua chegada na Espanha, em 1869, seus avanços e retrocessos, sua multiplicidade de pautas e o desenvolvimento de suas estratégias durante as primeiras décadas do século XX, fundamentais para entendermos de onde surgiu a revista e futura federação Mujeres Libres.


Em um primeiro momento, o uso recorrente do conceito empoderamento pode confundir, não tanto porque não possa fazer sentido em si, mas pela falta de esclarecimento por parte da pesquisadora, que teve o cuidado de indicar suas referências bibliográficas ao longo de toda a obra. Ao cotejar com a edição original, descobrimos que a palavra-chave utilizada pelas anarquistas retratadas é capacitación e não empoderamiento (empowerment), termo que não abarca as especificidades vivenciadas pelas libertárias, calcadas em uma concepção de aperfeiçoamento de habilidades individuais a partir do ponto de vista da integração comunal e anticapitalista. Esta é uma distinção que só será feita na segunda metade do livro. Nesses termos, as atividades e práticas de conscientização igualitárias, empoderadoras e, em última instância, transformadoras as preparariam não só para a vida comunitária como também para a revolução.


Alheias à identificação como feministas, as anarquistas espanholas acreditavam, em grande medida, que a igualdade entre homens e mulheres não poderia ser suficiente se as instituições e hierarquias existentes não fossem profundamente desafiadas. A emancipação das mulheres estaria, assim, vinculada à luta de classes ou ao projeto anarquista como um todo. No entanto, suas ideias marcaram a introdução do que seria o anarcofeminismo na Espanha. A reflexão na obra sobre o não-lugar dessas libertárias na chamada “primeira onda” do feminismo me remeteu às considerações de Françoise Vergès em Um Feminismo Decolonial, quando esta aponta o reducionismo que a caracterização de “fases” do movimento infere na luta constante e ininterrupta das mulheres, sobretudo daquelas à sua margem.


Sujeitas ao sexismo no âmbito público-privado e sem perspectiva de como a sua exploração poderia ser superada, as integrantes da Mujeres Libres desafiaram concepções internas do anarquismo e lutaram por uma organização autônoma que pudesse dar conta de subordinações específicas pelas quais viviam, sobretudo de natureza econômica, sexual e cultural. Na esteira dessa concepção vinha a formulação ambígua de elementos “masculinos” e “femininos” que deveriam ser equilibrados na sociedade, levando a um “humanismo integral”, visão que reiterava estereótipos de gênero. Essa observação de fato é uma preocupação de Ackelsberg, que procurava dialogar com as feministas estadunidenses da virada da década de 1980 e que, segundo a autora, caíam nesse mesmo binarismo. Além disso, uma vez que a tradição dos movimentos socialista e anarquista naquele país não teve significativa relevância política, a obra também objetivava apresentar a luta das mulheres espanholas a esse público específico. Trinta anos depois de seu lançamento, ainda que em um contexto político-social bastante distinto, ela me parece igualmente valiosa para os leitores brasileiros.


Para além de ser um estudo cuidadoso, a leitura de Mulheres Livres foi, para mim, uma interseção entre a história e os afetos. Apesar de serem tão diferentes da minha Francisca, entrar em contato com trajetórias de mulheres da sua geração foi um encontro com uma Espanha que me escapou no plano da experiência, mas que de alguma forma reverbera em mim desde sempre. A obra teve um efeito secundário e não menos importante no momento apocalíptico em que vivemos: o de renovar esperanças ao inspirar a organização de redes de solidariedade entre mulheres que perpassam a ideia basilar de que elas podem se sentir sujeitos históricos.


Minha bisavó não foi anarquista e tampouco tinha filiação política, mas foi uma mulher filha do seu tempo. Seu pequeno vilarejo natal, encravado na serra malaguenha da região de Ronda, sofreu com a guerra e as consequências político-econômicas que arrasaram a Espanha durante a década de 1930. Anos depois, ela viria a se casar com um Francisco, esse porém sevilhano, e acabou reconstruindo sua vida no Brasil. Deixou suas irmãs para trás e trouxe consigo uma vizinha pequena, a pedido da mãe, para que fosse poupada. A aldeia de Benaoján teve três de seus habitantes fuzilados pelo franquismo; destes, dois eram meus parentes: Pedro Rosa Ruano e Pedro Arillo Aguilar.

Notas


[1] O título do texto alude à frase em espanhol “En toda España el cielo está despejado”. Ao que tudo indica, na URSS se atribuía esta mensagem transmitida por rádio como sendo a senha que supostamente teria dado início à revolta militar de Francisco Franco contra a Segunda República Espanhola e à Guerra Civil. No entanto, a magia das semelhanças também pode nos remeter a Walter Benjamin que, ao se debruçar sobre a experiência de sua geração após a Primeira Guerra Mundial, constatou que do aniquilamento de seu mundo somente as nuvens no céu permaneceram inalteradas. Obrigada Maya Moldes por essa lembrança e Bárbara Mangueira pela gentil revisão do texto..

#GuerraCivilEspanhola #MujeresLibres #Anarquismo

Referências


ACKELSBERG, Martha A. Mulheres Livres: a luta pela emancipação feminina e a Guerra Civil Espanhola. São Paulo: Editora Elefante, 2019.

ALEKSIÉVITCH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.


Fernanda Bana Arouca é doutoranda em História Social pela UFRJ onde desenvolve pesquisa sobre propaganda e representações da Grande Guerra.

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