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Contratempo


Rebeca Gontijo


Detalhe do desenho do navio negreiro francês Le Brookes


O início desta história é difícil de precisar. Começou em algum lugar, no final de 2019. Um novo vírus rapidamente alcançou todas as partes do pequeno planeta. Longas distâncias foram percorridas por aviões e navios levando gente e doença. Covid-19 é o nome dela. O número marca o ano de início da peste. Ano da peste lembra outros tempos, quando se morria por causa da febre. Também lembra aquelas pragas bíblicas, recuando ainda mais no tempo.


No século XXI, o vírus viaja rápido e o que é sabido sobre ele também. Há pressa para entender como ele funciona, que sintomas provoca e como ocorre o contágio. O tempo para aprender é curto. Mas o tempo para saber pede menos pressa. É uma luta contra o tempo, porque a contagem de infectados e mortos não para de crescer. Hoje mesmo, por aqui, morreram 4000... em apenas vinte e quatro horas. Como andará a contagem dos mortos em outros lugares? Como será daqui a quinze dias? Observamos a linha do gráfico em subida que parece não ter fim. Quando começará a descer?


Por um lado, o tempo corre veloz e leva nossas esperanças de que a cura virá. A expectativa da vacina parece eterna nos trópicos. Conta-se os dias até que a idade apareça no radar, o que indica que é hora de vacinar. Será que a vacinação já alcançou os menores de 60 anos?


Por outro lado, o tempo parece parar. É difícil respirar. I can’t breath. Sensação de estar vivendo em um loop, porque as agruras do dia se repetem a cada dia, outra vez, mais uma vez, uma vez mais.... estamos presos nesse tempo suspenso, tenso, circular. A contagem dos mortos marca o passo. Haverá tempo para me salvar? A espera do resultado do exame gera angústia. Notícias chegam rápido, contando que alguém foi infectado, outro foi parar no hospital. Foi intubado. Alguém morreu.


Um observador situado no norte global constatou que “o vírus impôs-se como imperioso mestre do tempo”. Sua passagem pelo planeta desencadeou uma série de batalhas cotidianas para assumir o controle da pandemia, mas ele segue no controle (HARTOG, 2021). O vírus se adapta. Quanto mais circula, mais rápido ele muda. E, bem ou mal, nós nos adaptamos ao que alguns identificam como o “novo normal”: máscaras, álcool gel, mãos ressecadas de tanto lavar, circulação restrita, isolamento social.


O observador do tempo chama atenção para o contexto no qual o vírus se intromete: as sociedades onde um presente hipertrofiado coloca todos e todas ao vivo, o tempo todo. E se a crise da Covid-19 não abalou o presentismo, operou como um revelador. O isolamento foi preenchido pela conexão, acelerando a mudança rumo ao digital (HARTOG, 2021). Nesse domínio das redes sociais a (des)informação impõe seu ritmo.


Por aqui, a urgência para combater a doença é confrontada por forças do atraso. A ordem é retornar aos 80, 70, 60.... quem sabe ao século XIX? Saudosistas do império clamam pelo retorno da monarquia no Brasil do século XXI. Nostálgicos do regime militar anseiam por seu retorno. AI-5 outra vez. Já disseram que 1968 é um ano que não acabou... A melhor metáfora do atraso hoje talvez seja aquele velho ônibus articulado e lotado. Lembra um navio tumbeiro. Conexões interrompidas.


E, hoje, o isolamento demanda novas formas de contato. Mas a quarta geração da telefonia móvel deixa a desejar. Excluídos à espera da conexão, alunos sem aula, professores sem alunos, ambos sem lugar no mundo digital. E enquanto estamos no compasso da espera da conexão, da vacina ou do leito, da vida ou da morte, o vírus segue seu curso.


O observador externo nos lembra que o vírus nos obrigou a olhar para o passado e lamentar o esquecimento das lições da história (HARTOG, 2021). No país das endemias - malária, sarampo, esquistossomose, febre amarela, hanseníase, tuberculose, cólera, dengue.... -, não é preciso olhar muito atrás. O passado parece não passar, é a “contemporaneidade do não contemporâneo” (BLOCH, 1935). As lições são ignoradas e o tempo segue lento. Sem rumo. Só o número bruto avança e a linha do gráfico ameaça fugir do quadro. A música ao longe remete a outro tempo, antes da peste chegar. Mas é aqui mesmo, agora, tal qual uma pulsão de morte. Tum, tum, tum.... Importa viver já. E segue o baile na “ilha” chamada Brasil, agora isolado como centro de propagação das novas variantes virais. Esse baile antecede um golpe?


E se, “nessa batalha em que o vírus não tem outro objetivo a não ser garantir sua reprodução, o atraso tende a estar do lado do hospedeiro” (HARTOG, 2021), nós, hospedeiros desse indesejado hóspede, padecemos no atraso aqui e agora.

Como indagou Pedro Erber,

neste início do século XXI, em que se fecham exposições de arte para proteger a moral e os bons costumes da família brasileira cristã e a Klux Klux Klan volta a figurar com destaque no noticiário político norte-americano, o que há de mais contemporâneo que a aparência de atraso e retrocesso histórico? (ERBER, 2021).

Em meio à pandemia, o “aspecto antissocial, sem moral e sem virtude do antropófago, avesso a qualquer projeto coletivo” (ERBER, 2021), manifesta-se pleno nas ruas, nas casas e no mundo virtual. Circula a notícia de que um grupo de empresários e políticos decidiu furar a fila da vacinação; uma professora de Direito alertou para os riscos de dar prioridade aos mais frágeis durante a pandemia; e a apresentadora de tevê, preocupada em proteger animais, propôs testar a vacina em presidiários antes de aplicar na população...


Tal qual o louco do conto de Lu Xun, também nos sentimos sufocados, querendo dar uma volta no jardim. Contudo, “com vontade de comer homens, ao mesmo tempo que tem medo de serem comidos, todos se olham com a mais profunda suspeita” (LU XUN, 1918). E um medo difuso se instalou: do contágio, da vacina provocar mutações genéticas ou não ser eficaz contra o vírus, de ficar sem hospital, do oxigênio ou do anestésico faltar, de ficar desempregado e sem dinheiro, da conexão falhar, do comunismo se instalar, das pessoas queridas morrerem, do golpe militar, do amanhã não vingar... O medo de ser devorado pelo outro parece traduzir bem uma certa percepção da experiência do tempo, marcada por isolamento e inércia diante de algo que se movimenta rapidamente e exige pressa. Correr é atitude de presa. Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come.


Tal qual um contratempo, o vírus interrompe aquilo que até então identificávamos como a normalidade ou o cotidiano, evidenciando um enorme descompasso no enfrentamento da pandemia. A situação exige resistência, termo usado na microbiologia para designar um agente patogênico que se opõe à ação de um medicamento. No campo da psicanálise, designa o conjunto das reações do analisado que criam obstáculos ao processo de análise. Já o uso político e ético designa a luta contra o invasor estrangeiro e também a luta pela liberdade e dignidade humanas. Luta clandestina, cotidiana. Subterrânea também é a história da esperança. Dizem que é a última que morre.

#Pandemia #Coronavírus, #Tempo

Referências


BLOCH, Ernst. Heritage of our times [1935]. Berkeley: University of California Press, 1991.

ERBER, Pedro. Jamais fomos contemporâneos: a antropofagia de cá pra lá. Quadranti - Rivista Internazionale di Filosofia Contemporanea, vol. VI, n. 1, 2018, p. 199-220.

HARTOG, François. A Covid e o tempo: “Who is in the driver’s seat”?. HH Magazine - Humanidades em Rede, 2021.

LU XUN, A Madman’s Diary [1918].


Rebeca Gontijo é professora do Departamento de História da UFRRJ. Doutora em História pela UFF.

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