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A vida, um lar nada sólido


Francine Iegelski


Imagem: Eric Ravilious. The Bedstead (inverted), 1939.



Estou lendo a fabulosa Antologia da literatura fantástica, organizada por Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo. Os fatos que envolvem a organização da antologia têm uma história interessante, recheada de anedotas, e a versão que circula, inclusive a da recente edição brasileira, de 2019, é a que foi estabelecida, depois de algumas controvérsias, em 1965. A primeira versão da antologia é de 1940.


No prólogo ao livro, seus organizadores assinalam que as ficções fantásticas são tão antigas quanto o medo. Entretanto, quando circunscritas à Europa e à América, indicam que, como gênero, a literatura fantástica surgiu no século XIX e na língua inglesa. Entre os autores escolhidos pelo trio para figurar naquela antologia estão Julio Cortázar, Max Beerbohm, Elena Garro, Santiago Dabove, James Joyce, Franz Kafka, Rudyard Kipling e Edgar Allan Poe.


Loius Vax, um estudioso francês da literatura fantástica, fez uma esclarecedora colocação em relação a este gênero: o fantástico nos coloca em contato com o Mal. Os escritores da literatura fantástica exploram os valores negativos da vida humana, daquilo que gostaríamos de estar livres, como a perversidade, a doença, a loucura, os diferentes tipos de catástrofes causadas e sofridas, a dor, a solidão, a miséria, a morte, a falta de sentido... Para falar do lado sombrio do humano e do que nos aterroriza – e exemplo dos fantasmas e de toda a sorte de eventos sobrenaturais, de saltos e inversões temporais –, esses escritores construíram uma maneira diferente de narrar o improvável, o impossível ou o absurdo. Eles trataram o fantástico de maneira realista, pela abordagem da verossimilhança; ou seja, a melhor literatura fantástica tenta apresentar o irreal ou o sobrenatural por meio de uma narrativa que cria a “impressão de real”.


Na América Latina, a partir dos anos 1930, surge o realismo mágico, distinto da literatura fantástica. Muitos críticos literários apontam o livro Historia universal de la infâmia, de Jorge Luis Borges, publicado em 1935, como o marco desse novo momento da literatura latino-americana. Entre seus nomes ilustres estão Alejo Carpentier, Miguel Asturias, Silvina Ocampo, Elena Garro, Juan Rulfo e Gabriel García Marquéz. Alejo Carpentier, um dos grandes entusiastas e mentores do realismo mágico, escreveu que o realismo mágico descreve e apresenta o real cotidiano das terras sul-americanas, cotidiano que sempre foi insólito. No realismo mágico, o fato de uma menina voar ou de os mortos conversarem entre si no cemitério não é descrito ou percebido como sobrenatural. É como se o realismo mágico reafirmasse a nossa familiaridade com o absurdo, ameaçando a ordem dos valores estabelecida pelo pensamento moderno, entre eles a própria compreensão de tempo e, com ela, a ideia de finitude do tempo de uma vida que vem com a morte.


Os mortos podem falar na bela peça de teatro escrita em 1958 pela mexicana Elena Garro, intitulada Um lar sólido. O texto, relativamente curto e com passagens de humor ácido, fala sobre a morte e o tempo: ele contraria a ideia de que a morte corresponde ao silêncio, ao fim das vozes e do tempo da existência de um ser. O tempo age de modos diferentes para os personagens da peça que estão enterrados em um cemitério, esperando ansiosamente os outros que virão, assim como esperam a hora do Juízo. Aliás, quando o corpo se decompõe na morte, ele passa a ser todas as outras coisas do mundo. Disse um personagem de Garro, de nome Muni: “Não se aflija quando seus olhos começarem a desaparecer, porque então você será todos os olhos dos cães olhando para pés absurdos”. O sentido que entrelaça as relações e as idades das personagens não é linear, não pode ser apreendido pela lógica puramente geracional. Entretanto, o tempo na morte não desaparece, ele segue existindo nessa outra forma de existência que nos é apresentada. Ele segue existindo porque eles seguem existindo. Há, também, nos diálogos dos personagens, fragmentos de história do México, as Revoluções, os fuzilamentos, a violência da polícia, a pobreza... A peça termina sem sabermos se ele (o Juízo) realmente virá. Parece que não. Ao final, cada personagem se transforma em alguma coisa ou sentimento: chuva sobre a água, brincadeira, broto tenro de uma alface... A última personagem a falar, de nome Lídia, escolhe o que ser: as lajes de seu próprio túmulo, enfim um lar sólido.


É verdade que o texto de Garro, para além dos dramas da história, foi escrito no contexto em que a vida após a morte, a vida dos mortos, remonta a raízes culturais ricas e profundas da população mexicana. Mas é verdade também que, hoje, esse texto se comunica conosco de uma maneira trágica. Isso porque a morte é a palavra de nosso tempo: o nosso cotidiano é feito de centenas de covas abertas, caixões, vimos corpos nas ruas, frigoríficos, temos medo da morte e muitos voltaram a viver a tortura da fome. Onde estarão aqueles que morreram? O que será de nosso tempo e de nós que ficamos? Uma coisa me parece clara: estamos vivendo a barbárie e este sistema não nos oferece uma saída, a não ser a do silêncio dos túmulos.

#Tempo #Morte #Literatura


Francine Iegelski é professora de História da Universidade Federal Fluminense. Publicou o livro Astronomia das constelações humanas. Reflexões sobre o pensamento de Claude Lévi-Strauss e a história. Atualmente se dedica ao estudo do realismo mágico, gênero literário impulsionado por escritores de vanguarda latino-americanos (1940-1960).