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A educação sexual de jovens e mulheres adultas: entrevista com Gabriella Freidman

“O que percebo é que a maioria das mulheres não sabe que sofre violência e está em relacionamento abusivo. Muitas delas convivem com o medo o tempo todo.”


Amanda Danelli


Legenda - Foto: Mica Asato | Pexels


A entrevista com a Gabriella Freidman [1] aconteceu pelo Zoom em 31 de julho de 2020.

Amanda Danelli: Como foi a sua formação e o início da sua trajetória profissional?

Gabriella Freidman: Minha graduação foi em Ciências Biológicas pela Santa Úrsula (1996-2000), depois fiz uma especialização em Sexualidade Humana, iniciada na Gama Filho e encerrada na Estácio (2012-2014). Essa formação que eu fiz foi com a galera que trouxe a sexologia pro Brasil, como a Maria do Carmo de Andrade Silva. Fiz uma prova de títulos para a Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, então tenho esse título de educadora sexual também pela Sociedade. Eu comecei a minha vida pensando em seguir um caminho tradicional na Biologia. Cheguei a estagiar em um laboratório trabalhando com biologia e microscopia eletrônica na UFRJ, pesquisando protozoários vaginais. Eu nem sabia o que aconteceria no futuro, mas a questão já estava ali (risos). Uma das coisas que me fez não seguir a vida acadêmica foi achar que a universidade se fecha muito em sua própria bolha. No último ano de faculdade decidi que não queria a vida acadêmica e que queria trabalhar em escola, e fui questionada por toda a equipe do laboratório. Decidi isso, porque tive uma experiência numa escola municipal no Rio de Janeiro e quando entrei em sala de aula eu entendi que era aquele o caminho que eu queria pra mim. A partir daí, fui dar aula de biologia no Ensino Médio e Fundamental e ingressei no magistério em Teresópolis, há 18 anos, em 2002. Até que um dia, uma professora de português fez um projeto com os alunos e eles começaram a fazer várias perguntas sobre sexualidade: o que é ereção? o que é ejaculação? Então ela se desespera e me chama, porque achava que todo professor de biologia estaria preparado para trabalhar com o tema, e isso não é verdade. Foi ali que eu percebi que eu tinha muita facilidade para lidar com essas questões, então fui fazer uma formação e lancei um projeto que era uma oficina de educação e sexualidade para jovens e adultos, em 8 encontros, e assim foi o pontapé. A partir daí, surgiram os convites para palestras nas escolas, oficinas para adolescentes, para professores, oficinas em reunião de pais e há 10 anos eu venho atuando como educadora sexual.

A.D.: O que te despertou para a educação sexual como um campo de atuação profissional?

G.F.: Acredito que eu me tornei educadora sexual por conta de uma demanda que eu percebi a partir da minha atuação como professora de ciências, considerada a realidade da escola pública. Eu achava, e ainda acho, que esse tipo de informação deve chegar a todas as pessoas. A segunda coisa foi a oportunidade de ser chamada dentro da escola para esclarecer uma série de dúvidas de um grupo de adolescentes. Antes desse grupo, havia reunião da equipe de ciências na escola e entre 5 professores ninguém se sentia à vontade de falar sobre sexualidade com os estudantes. Eu era a única que me interessava. Vejo isso com muita tristeza. Uma coisa que eu preciso esclarecer é que um educador sexual não se faz só pela formação, até porque essa não é uma profissão reconhecida. Mas um dado muito importante para quem trabalha com sexualidade humana é, além da formação, investir em terapia porque senão a sexualidade do outro vai se espelhar em você. Então eu faço análise há muitos anos. Porque aparecem questões que esbarram nas suas crenças, no que você entende por moral e é preciso produzir acolhida sem julgamento. As pessoas não querem falar sobre esses temas. porque esses temas esbarram nelas, as desafiam a si próprias. Se você não olhar para sua vida, para sua própria história você não encara um grupo com esse tema. E isso me faz entender a recusa de tantos professores e professoras em trabalhar a questão da sexualidade. Quando eu comecei, eu comecei, entre outras coisas, porque tinha uma série de oficinas oferecidas pelo município e a que era sobre sexualidade, em 10 anos, nunca chamou a atenção de nenhum professor. Os parâmetros curriculares nacionais dizem que a sexualidade precisa ser trabalhada de forma transversal e na prática isso não funciona. Eu entendo como é importante a transversalidade do tema, mas se os professores não têm essa formação eles não levam o tema para a sala de aula. E, como em tudo, é preciso que os professores sejam preparados para abordar o tema. Era preciso que houvesse uma política pública séria e robusta de formação dos professores.

A.D.: Como tem sido a sua atuação como educadora sexual?

G.F.: O primeiro projeto que eu fiz se chamou “Sexualidade e Afetividade”. Hoje eu não usaria mais esse termo, mas precisei usá-lo para que o projeto fosse aceito. Estava lidando com o pessoal da secretaria de educação de Teresópolis que, ressabiados com a sexualidade, aceitaram melhor o projeto com a afetividade. Esse projeto foi premiado duas vezes consecutivas, em 2011 e 2012. Comecei o projeto antes mesmo de concluir a pós. Havia um grupo nessa secretaria que ficou ali uns 5, 6 anos e que gostou do projeto e me abriu portas em todas as escolas municipais. Comecei em 4 escolas, depois fiquei em 2 escolas de forma fixa e depois fiquei girando as escolas. Com a troca de governo em 2017, toda a secretaria mudou, a chefe do departamento que me apoiava se aposentou e a partir daí eu comecei a encontrar dificuldade de entrar nas escolas com os projetos. Quando as portas da secretaria se fecharam eu tive a ideia de trabalhar a capacitação de professores. No entanto, há 6 anos eu faço um projeto com a Vara da Infância em Teresópolis – “Tecendo cidadania” – e um dos seus módulos é sobre sexualidade. Esse projeto roda as escolas públicas e privadas. Faz-se um pedido, uma fila de espera e o projeto vai às escolas. Isso me ajudou muito a chegar aos lugares. A minha ideia hoje é capacitar os professores para que eu possa me multiplicar e não precise estar em todas as escolas. Nessa caminhada, eu também escrevi um livro Tem um bebê na barriga da mamãe e meu filho ilustrou. A proposta do livro é observar o que uma criança pensa quando vê uma mulher ou a mãe grávida: como ela elabora essa chegada e saída do bebê no corpo da mulher? Por conta do livro eu também fui a algumas escolas e uma escola municipal adotou o livro. O livro também foi noticiado nos jornais de Teresópolis. São quase 10 anos de um trabalho com muita determinação, mas eu poderia ter conseguido muito mais não fosse o cenário conservador em que vivemos.

Quando chegou o ano passado eu girei só com a Vara da Infância, sozinha não chegava a lugar nenhum. Aí uma amiga pediu que eu desse uma orientação para uma sobrinha e eu marquei de fazer isso no escritório do meu marido. Nessa hora eu tive um “clique” pensando em quantas mulheres precisam desse tipo de informação e desse tipo de atendimento e então agora no início do ano uma ginecologista da cidade me convidou para dar atendimento como educadora sexual no consultório dela, me sinalizando que há uma demanda muito grande entre as mulheres para esse tipo de serviço. Às vezes são perguntas muito simples, mas muitas mulheres precisam de uma outra pessoa que produzam acolhida validando as dúvidas que elas têm. Os ginecologistas que não são especializados em sexualidade não fazem perguntas do tipo: como é a sua frequência sexual? Como está a lubrificação? Como está a sua libido? Eu ofereço informação de inteligência sexual em 4 consultas: autoconhecimento, ensinando sobre o órgão genital feminino, onde pode doer, onde não pode, como lubrifica, e higiene; depois: por que você faz sexo? Porque infelizmente o último motivo que aparece é que a mulher faz porque ela quer. Nisso eu acabo esbarrando em relacionamentos abusivos, violência doméstica; então falo em resposta sexual, ajudando a mulher a pensar qual é a resposta sexual dela; e, por fim, falamos sobre fantasia e desejo. Essa etapa de 4 encontros é importante pra eu fazer uma triagem e a partir daí perceber se preciso sugerir que essa mulher procure uma fisioterapeuta pélvica ou então psicoterapia, observando que essa questão pode envolver mesmo uma equipe multidisciplinar.

A.D.: Nos últimos anos a gente viu o debate em torno do projeto Escola Sem Partido voltar à tona. Como isso afetou o seu trabalho?

G. F.: Como te disse antes, desde 2017 as portas estavam fechadas dentro da secretaria de educação de Teresópolis. Em 2018 houve uma eleição suplementar para a prefeitura da cidade e a nova secretaria de educação me chamou para conversar. Eu vi claramente que elas gostaram do projeto, mas estavam com um medo enorme de tocar no tema da educação sexual, isso já no bojo das eleições presidenciais de 2018. Elas me disseram que não bancariam essa guerra e aí não fiz mais as oficinas nas escolas.

Embora os parâmetros curriculares nacionais e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) continuem resguardando que a gente tematize a sexualidade nas escolas, o debate em torno do projeto Escola Sem Partido, de certa forma, autorizou os diretores conservadores a não abordar mais o tema nas escolas. O Escola Sem Partido junto com as fake news durante a campanha presidencial em 2018 pioraram muito o cenário para quem trabalha com educação sexual. E isso é um problema sério porque a sexualidade bomba na escola entre os alunos, seja na adolescência porque eles namoram, seja entre as crianças porque eles descobrem o próprio corpo e percebem os outros corpos. A escola cala, mas o aluno grita o que ele sente. E a gente percebe isso nas pichações que eles fazem nas mesas, nos muros, nas portas dos banheiros. O estudante vem de casa com a criação dele, mas chega na escola e encontra um universo múltiplo. Apesar de frequentemente tentar silenciar o tema, a escola, na figura de alguns professores e funcionários, também é um espaço de acolhida dos relatos de abusos que as meninas e meninos vivem nas ruas e junto das suas famílias.

A.D.: Como você vê a presente situação de crise sanitária afetar as meninas e mulheres a sua volta?

G. F.: Eu vejo com muita preocupação porque a escola é um lugar onde as crianças e os adolescentes podem pedir socorro. A menina que sofre violência sexual, ou outras formas de violência, está tendo de ficar com o agressor o tempo todo e com as pessoas que calam essa situação. Também tenho medo do óbvio: que é a adoção da educação a distância, de modo que a escola deixe de ser esse espaço físico de apoio porque as jovens não vão chegar ao conselho tutelar sozinhas. As mulheres do meu convívio, muitas delas, sofrem violência, mas sem ter consciência disso. A minha realidade em Teresópolis é de ver muitas mulheres com medo dos seus maridos: medo de não fazer o jantar, medo de ligar para uma amiga, medo de atrasar meia hora, medo de ter um marido sempre mal-humorado. Talvez eu conte em uma das mãos as mulheres que eu conheço que não passam por nenhum tipo de violência. E falo inclusive das adolescentes, porque desde as primeiras experiências as meninas já vivem esses relacionamentos abusivos. O que percebo é que a maioria das mulheres não sabe que sofre violência e está em relacionamento abusivo. Muitas delas convivem com o medo o tempo todo. Independente da minha experiência numa cidade média, o que eu vejo é que essa realidade se espraia para todos os lugares, cidade pequena ou grande, classes baixas, médias e altas.

Uma outra questão que a pandemia coloca em cheque é o sexo dentro do casamento. No tempo de isolamento a sensação de obrigação de fazer sexo dentro do casamento aumentou demais porque muitos homens estão desempregados ou em teletrabalho e muitos deles se sentem no direito de cobrar ou exigir as relações sexuais. É um momento de baixa libido total. A gente está em crise financeira, crise sanitária, crise política, escolas fechadas, crianças em casa e a nossa energia vital está em outro lugar.

A.D.: Como a pandemia e o isolamento social transformaram a sua atuação como educadora sexual?

G. F.: A crise sanitária fez com que a gente ficasse em isolamento. Eu tive a porta das trocas presenciais fechada, mas por outro lado me abriu a possibilidade do contato virtual, chegando a outras pessoas, muitas das quais eu sequer vou chegar a conhecer. Com a pandemia eu tive a ideia do canal no YouTube. Começou com uma professora me pedindo um vídeo... e a proposta agora é divulgar meu trabalho pelo YouTube e atender às demandas que aparecem das escolas privadas. Ali as escolas vão encontrar uma espécie de “degustação”, o que antes eu já fazia presencialmente. Entendo que a internet e as redes sociais são facilitadoras nesse aspecto. A partir dali a escola pode contratar um curso completo.

Na clínica ginecológica eu faço atendimento presencial e virtual, mas a maioria das mulheres prefere a consulta presencial porque elas têm medo de falar sobre esses temas estando em casa. Então o que eu penso é que se em meio a uma pandemia as mulheres vão até mim presencialmente é porque elas precisam, entre outras coisas, saírem de suas casas para que possam se olhar, se cuidar. Eu sou uma pessoa ajudando 6 ou 8 no consultório. Quantas mais têm por aí?

Nota


[1] Gabriella Freidman formou-se no ano de 2000 em Ciências Biológicas pela Universidade Santa Úrsula. Fez ainda uma especialização em Educação em Sexualidade, entre 2012 e 2014, na Estácio de Sá. Há 18 anos é professora da rede municipal de Teresópolis, cidade serrana do estado do Rio de Janeiro, onde realiza oficinas, palestras e atendimentos como educadora sexual desde 2011.

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Amanda Danelli é historiadora, mãe, feminista e professora adjunta do Departamento de Turismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).