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A desilusão como potência: o amor em perspectiva


Juliana Campos Gomides



Viver numa sociedade violenta e desigual, em seus múltiplos aspectos, torna o tema do “amor” uma busca constante. Seja como forma de empoderamento, de conhecimento teórico, nas artes e/ou nos conteúdos audiovisuais, todas e todos querem experimentar aquilo que é prometido por esse sentimento. Na sociedade brasileira, por exemplo, onde temos de lidar atualmente com milhares de mortes por conta da má gestão da pandemia, além do retrocesso de políticas públicas no que tange aos direitos civis das mulheres – na compreensão plural da categoria – e do genocídio da população jovem negra, que toca diversas mulheres mães negras, somente o amor não sustenta a esperança.


Ou melhor dizendo, aquela ideia de “amor” como é divulgada através das novelas brasileiras, que a trama envolve um casal principal – voltados ao público feminino, principalmente – ou a trazida pela banda britânica The Beatles, em 1967, na canção “All you need is love”. Essa ideia de amor, como se fosse algo passivo, ou seja, quase somente empírico, dado e evidente, já não engloba a contemporaneidade.


Ser historiadora, pesquisadora de gênero e feminista, por exemplo, permite com que vejamos o mundo para além do que nossas retinas nos mostram. Felizmente, ou não, os questionamentos que aplicamos aos nossos objetos de estudos e às nossas análises, nos acompanham para fora da academia, o que faz com que percebamos as redes de poder que se estabelecem nos nossos vínculos e relacionamentos. Os avanços nas denúncias sobre assédios morais e/ou sexuais, assim como de violências domésticas e/ou obstétricas ressoam os debates teóricos feministas no campo social.


A respeito do amor, entretanto, bell hooks o enxerga para além de um sentimento óbvio, a priori das relações. Em “Tudo sobre o amor” (2021) [2000], a escritora propõe uma análise da categoria de “amor” a partir de uma perspectiva de raça e gênero para demonstrar como o desamor é estrutural em uma sociedade patriarcal. Depois de ler o livro, chego a pensar que “all you need is love” se tornou quase um anacronismo para os tempos atuais.


O entendimento de que o patriarcado envolve todas as camadas sociais nos leva a questionar verdades seculares nas nossas pesquisas e a compreensão de limites de conceitos quando pensamos em experiências interseccionais. Desafiando o entendimento de “amor”, hooks demonstra como que por detrás dessa concepção existem reflexos das desigualdades sociais, que impedem que sejamos sociedades amorosas. Assim como as concepções de “feminilidade” e “masculinidade” passam despercebidas ao longo dos nossos processos de socialização, a ideia de como se estabelecem relações – que deveriam ser – amorosas também acontece de forma silenciosa. Por conta disso, sujeitas e sujeitos vivem com a sensação de desamor, buscando o preenchimento desse sentimento constantemente. A autora explica que vivemos, na verdade, em relações cuidadosas, o que faz com que “cuidado” seja confundido com “amor”. A ideia de amor é tão popular, mas, ao mesmo tempo, tão esvaziada, que hooks comenta que durante a infância, mesmo quando as crianças estão sofrendo abusos psicológicos e/ou sexuais, aprendem que aquilo é amor. Isso me lembra outro livro que também pensa sobre as relações amorosas, “Outros jeitos de usar a boca” (2017), em que a autora Rupi Kaur comenta que, aprendemos amar homens violentos durante a infância, quando somos ensinadas a amar aqueles que gritam e/ou violentam nós mesmas e/ou mulheres ao nosso redor. Nos tornamos, por isso, mulheres que confundem agressão com amor.


Em uma sociedade patriarcal tal qual a brasileira, compreender o amor como uma possibilidade de transformação social é desafiador. Isso porque entender essa concepção, exige que questionemos “masculinidade” e “feminilidade”, que por sua vez, refutam a ideia de binarismo sexual e a normatividade por detrás dessa lógica. Ainda que as mulheres estejam cada vez mais envolvidas com os debates feministas, as discussões sobre masculinidades caminham devagar, principalmente entre homens heterossexuais, de classe média e brancos. Assim como propõe Joan Scott (1995), usar o recorte de gênero e, acrescento, interseccionalidades em geral, nos faz entender que o amor não é tudo que precisamos. Pensar e enxergar as relações interpessoais para além do visto, mostram as camadas de desigualdades sociais que estão presentes nos nossos relacionamentos, mesmo quando pensamos que esses estão isentos de relações de poder.


Relações heteronormativas tendem a ser mais desiguais, sobretudo, ao considerar a construção histórica e social do conceito de “homem”. Intrínseco ao sistema capitalista, a masculinidade entendida enquanto homogeneizadora afasta os homens de viverem experiências verdadeiramente amorosas desde a infância, segundo hooks. Quando pequenos, os meninos, ao serem inseridos em outros espaços, para além do ambiente familiar, aprendem que mentir para mulheres gera poder sobre elas. A falta de responsabilidade nas relações se torna, então, um padrão de comportamento e impede que relações verdadeiramente amorosas sejam estabelecidas. A masculinidade e os discursos tais como “homem não chora”, “homens são racionais e mulheres são emocionais”, endossam a dificuldade dos homens de entrarem em contato com as feridas que a masculinidade proporciona e, consequentemente, com o entendimento do papel social enquanto sujeito masculino.


A ausência de uma reflexão crítica sobre o “Eu” e, principalmente, sobre o “Eu no mundo” impede que os papéis de gênero sejam realmente discutidos e influenciam comportamentos e políticas conservadoras. A cultura do consumo, para hooks, é uma esfera que, por conta do desamor e da constante sensação de falta, transversaliza o fortalecimento da economia de mercado. A colonização das relações acontecem mesmo entre casais oriundos de camadas sociais elevadas, onde mulheres recebem e ocupam espaços historicamente masculinos, a fim da manutenção do poder patriarcal.


Ainda que canções amorosas aqueça nossos corações e possuem funções psicoemocionais importantes, como a sublimação do inconsciente, o amor precisa ser uma ação, capaz de se tornar “uma vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou de outra pessoa” (hooks, 2021, p. 52). Para que haja amor, é preciso justiça e o reconhecimento de opressões historicamente institucionalizadas. É amando dessa maneira que se torna possível cultivar esperança para um amanhã melhor e emancipatório para todas e todos.

#Amor #Contemporâneo #Feminismo

Referências


HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Editora Elefante, 2021.

KAUR, Rupi. Outros jeitos de usar a boca. São Paulo: Planeta do Brasil, 2017.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & realidade, v. 20, n. 2, 1995.



Juliana Campos Gomides é historiadora e pesquisadora na área de História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP/ICHS). Atualmente desenvolve trabalhos no campo de Teoria da História, Historiografia e História das Mulheres.


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