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A atualidade de Katharina Blum: mídia, gênero e violência

Com protagonismo feminino, Heinrich Böll escancarou a violência midiática de que foi também vítima na década de 1970


Walkiria Oliveira Silva


Heinrich Böll em Heerlen | Fotografia: Marcel Antonisse | Wikimedia Commons


Contarei partes do livro.

E é totalmente intencional.


Katharina Blum perderá sua honra e a perderá violentamente. Eis tudo o que podemos pressupor ao nos depararmos com a narrativa, de tom ensaístico e propositalmente jornalístico, do alemão Heinrich Böll, agraciado com o Nobel de Literatura em 1972. A Honra Perdida de Katharina Blum, publicado em 1974, era acompanhado por um subtítulo inquietante que ganhou destaque desde a primeira edição: de como surge a violência e para onde ela pode levar.


Katharina, então com 27 anos, na véspera do carnaval de 1974, em alguma cidade da Alemanha ocidental, decide ir a uma festa. Lá conhece Ludwig Götten, um desertor do exército procurado pela polícia por roubo e assassinato. Götten acompanha Katharina até a sua casa, onde passa a noite e foge pela manhã com a sua ajuda. Após quatro dias, em uma noite de domingo, Katharina assassina a tiros um jornalista que trabalhava no JORNAL. Passamos a acompanhar dois processos que se retroalimentam: a investigação policial sobre a relação entre Katharina e Götten e a perseguição e violência midiáticas desencadeadas pelo JORNAL e suas nefastas consequências, não somente na vida de Katharina, como na de todos aqueles que lhe eram próximos. É sempre com letras maiúsculas que Böll se refere ao JORNAL, a fim de sublinhar seu poder midiático que nos leva a associá-lo a uma força onipresente e onipotente que acompanhará Katharina e todos à sua volta.


Em alemão, Blum deriva de Blume (flor), que nos remete à fragilidade e delicadeza associadas às flores e, metaforicamente, às mulheres. O jogo de palavras transforma a imagem positiva de Katharina, de uma jovem discreta, amável e responsável, para uma imagem negativa, de uma mulher fria, violenta e calculista que jamais poderia ser relacionada a uma flor. Durante a investigação, ao interrogar os vizinhos de Katharina, descobre-se que ela recebia “visitas masculinas” - outra característica que não poderia ser vinculada à delicadeza casta de uma moça comparada a uma flor. Böll arquiteta um outro jogo sarcástico de palavras, cuja interpretação se relaciona com os discursos acerca dos papeis de gênero. Katharina mobiliza os adjetivos “amoroso” e “indecoroso” para se referir ao seu trato com homens. Amorosos eram relacionamentos consensuais, indecorosos eram aqueles regidos pela lógica do machismo que dava aos homens o direito de tocá-la indiscriminadamente. Uma vez que trabalhava como empregada doméstica desde os 14 anos, Katharina declara que esse comportamento era normal, marcando uma crítica calcada na relação entre gênero e classe social.


Descobrir quem era a oculta visita masculina torna-se o eixo articulador da investigação policial. Vítima de um ardiloso julgamento moral promovido pelo JORNAL, Katharina vê seu rosto estampado na primeira página, acompanhado da manchete “visitas masculinas”, seguida de “amante de ladrão” e “assassina”. A “visita masculina”, imprudência moral de Katharina, servia de aval para que a jovem sofresse todo tipo de violência sexual e midiática. O assédio permeia seu interrogatório e perguntas como “ele te comeu?” são direcionadas a Katharina. Seu corpo é violentado, por exemplo, ao trocar de roupa com a porta aberta e ser assediada por um dos investigadores. Suspeitou-se que a jovem recebia de sua visita oculta benefícios pecuniários. Era absurdo que uma jovem possuísse apartamento e carro próprios. Os bens de Katharina e sua vida estável não poderiam ser o resultado do bem-estar econômico resultante do Plano Marshall, e da reconstrução econômica pela qual passou a República Federal da Alemanha, fundada em 1949 sob o comando de Konrad Adenauer. Se Katharina desfrutava de uma vida econômica estável, aos olhos do JORNAL e de seus interrogadores, isso estava necessariamente vinculado à visita masculina e suas benesses financeiras.


Em um país onde se encontrava o muro de Berlim, símbolo dos temores da Guerra Fria e da divisão dos blocos capitalista e socialista, logo é associada ao julgamento moral uma luta ideológica. O JORNAL colhe testemunhos de todos que conheciam Katharina desde a infância, porém os manipula de forma inescrupulosa, a fim de provar que Katharina era uma comunista e terrorista em potencial. Um dos pontos extremos da violência ocorre quando a mãe de Katharina morre, parcialmente em decorrência dos abalos sofridos devido à perseguição midiática sobre sua filha e que também a atingia. Em uma realidade sem smartphones, redes sociais e hiperconectividade, Katharina é assediada por outros meios de comunicação. Recebe cartas, bilhetes, telefonemas anônimos que a levaram à exaustão física e psíquica. É chamada de “puta comunista”, “ratazana vermelha” e oferecem-lhe visitas masculinas - amorosas, claro, e nada indecorosas.


Böll nasceu em 1917, quando a Alemanha caminhava para a derrota definitiva na Primeira Guerra Mundial. Sua infância acompanhou a reconstrução de seu país, novamente destruído na Segunda Guerra Mundial. Em 1939, Böll foi convocado para o front, o que atrapalhou seus estudos universitários. Crítico do nazismo, foi quase desertado por tentar escapar do serviço militar provocando dispensas. No final da guerra foi preso em um campo de prisioneiros na França. Ao retornar a sua cidade natal, Colônia, passou a se dedicar exclusivamente à literatura.


Böll integrou uma nova onda da literatura alemã que se esforçou para compreender o mundo despedaçado pelas consequências físicas e emocionais advindas das duas guerras mundiais. No caso alemão, mostrava-se a incontornável obrigação moral de interpretar a monstruosidade do holocausto. Junto a autores como Günther Grass, Böll participou do “Grupo 47”, uma congregação de autores que ditavam, digamos assim, os rumos da nova literatura alemã com boa aceitação pelo público e pelas casas editoriais. Pela publicação de “As ovelhas negras”, Böll recebeu desse grupo um prêmio literário. Geralmente, esquecemo-nos com facilidade de que toda e qualquer ditadura – no caso alemão, o nazismo – trata também de submeter a linguagem aos seus ideais, destruindo-a, subvertendo-a, aprisionando-a. A geração de Böll tratou de reconstruí-la e, por isso, o escritor não se incomodou com a designação “literatura de escombros”, direcionada a sua geração.


Não foi por acaso que Böll se preocupou com a violência gerada pela mídia e quais os caminhos desastrosos ela podia tomar, como deixou exposto no posfácio escrito dez anos após a publicação da primeira edição e que acompanha a tradução brasileira. Em janeiro de 1972, Böll publicou na Spiegel (um periódico semanal alemão com alta tiragem) o artigo “Ulrike Meinhof quer misericórdia ou salvo-conduto?”. Böll se contrapunha ao jornal Bild, que acusou, sem apresentar provas, o grupo Baader-Meinhof de assalto a banco com a manchete “O bando Baader-Meinhof continua matando”. Atuante na Alemanha Ocidental, a Rote Armee Fraktion, conhecida como bando Baader-Meinhof, foi um grupo guerrilheiro de esquerda que tinha a jornalista Ulrike Meinhof como uma de suas principais lideranças. Em 1977, depois da controversa morte de Ulrike na prisão, o grupo desencadeou uma série de ataques, sequestros e assassinatos. O chamado Outono Alemão gerou uma crise institucional na República Federal da Alemanha e uma guerra declarada entre o governo e o grupo Baader-Meinfhof.


Böll foi acusado pelo jornal Bild de apoiar o terrorismo contra o Estado, levando a um debate que se desdobrou em artigos escritos e discussões televisionadas sobre o escritor que se defendeu em artigos na Spiegel e no Süddeutsche Zeitung. Böll advogou pelas garantias constitucionais, como a presunção de inocência e a dignidade da pessoa humana, que deveriam vigorar no estado democrático de direito. Opunha-se a todo e qualquer abuso que ferisse os direitos constitucionalmente instituídos e conquistados, independente das acusações recaídas sobre os cidadãos. Como Katharina Blum, que tinha ido a uma festa com um cravo vermelho nos cabelos (uma referência à Revolução dos Cravos que ocorrera meses antes da publicação do livro?), todos deveriam ter seus direitos constitucionais garantidos, sem exceção.


Katharina Blum trazia na sua primeira página um aviso: qualquer semelhança com as práticas jornalísticas do jornal Bild era inevitável e não se tratava de coincidência. Böll era politicamente engajado e sua literatura possuía uma ligação direta com os acontecimentos políticos e sociais de seu próprio tempo. Seu heterodiscurso foi marcado por um enfrentamento com a realidade, do indivíduo temporalmente situado que, em Katharina Blum, poderia ser resumido na questão: qual o poder do indivíduo diante do poder midiático e como o Estado pode protegê-lo? Isso fica claro no desespero de Katharina que, ao ler as páginas do JORNAL, questionou se o Estado "não poderia fazer nada para protegê-la daquela imundície e resgatar a sua honra perdida”.


Bild, em alemão, significa imagem e tem por verbo bilden, fazer uma imagem (com referência ao sentido bíblico, do homem feito à imagem e semelhança, Bild de Deus). Bildung, ideal de formação, muito caro à filosofia e à tradição literária germânica, advém de Bild (assim, Bildungsroman, romance de formação). Nesse sentido, formação não é apenas receber informações de forma passiva, mas um processo autônomo e ativo no qual o conhecimento adquirido volta ao mundo. A interação conhecimento-mundo permite revisar opiniões e livrar-se de preconceitos e pressupõe o caráter humanista de total respeito ao humano. Bildung é acompanhado pela crítica. Bild, do grupo editorial Springer, é um dos jornais mais vendidos na Alemanha, com tiragens estrondosas. É caracterizado por recursos sensacionalistas e está ligado ao crescimento da direita no país. A cada qual a sua Bild.


A explosão de fake news por diversos suportes midiáticos e de comunicação, sustentada por um apelo sensacionalista e imagético, parece-me uma perversão da própria ideia de Bildung. As notícias falsas que correm pelos aplicativos de mensagem não formam, deformam. Promovem atos de violência, destruição de reputações e tormentas psicológicas, assim como em Katharina Blum. Ondas avassaladoras de notícias falsas ameaçam a estabilidade do sistema democrático, a saúde pública, a vida de grupos minoritários e o direito à diversidade. E, como Böll, continuamos a nos perguntar como o Estado pode proteger seus cidadãos dos ataques e abusos promovidos pelos meios midiáticos (estendidos aqui à explosão das redes sociais e das Big Techs).


Quando se acredita em tudo que se vê (insisto na dimensão imagética) trata-se de uma absorção passiva de informações sem relação com a capacidade crítica e reflexiva que deveria permear a nossa relação com o mundo. Vilém Flusser em um dos seus inúmeros escritos sobre os vínculos entre a escrita, em sentido amplo, e o mundo digital, afirmou que com o crescimento do mundo virtual ocorreria o domínio da imagem e o consequente enfraquecimento da crítica. Cabe a nós o esforço diário do restabelecimento da crítica para que possamos, novamente, olhar e interagir criticamente com mundo, em um processo incessante de transformação que defenda a democracia e a dignidade da pessoa humana em sua totalidade e pluralidade.

Nota

A Honra Perdida de Katharina Blum foi adaptado para o cinema, em 1975, com direção de Volker Schlöndoff e Margarethe von Trotta, com Angela Winkler no papel de Katharina Blum. É um dos grandes sucessos do cinema alemão.

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Referências


BÖLL, Heinrich. A Honra Perdida de Katharina Blum: de como surge a violência e para onde ela pode levar. São Paulo: Carambaia, 2019.

FLUSSER, Vilém. A Escrita. São Paulo: Annablume, 2010.

MAZZARI, Marcus Vinícius. Labirintos da Aprendizagem. Pacto fáustico, romance de formação e outros temas de literatura comparada. São Paulo: Editora 34, 2010.

SOETHE, Paulo. “Posfácio”. In: BÖLL, Heinrich. A Honra Perdida de Katharina Blum: de como surge a violência e para onde ela pode levar. São Paulo: Carambaia, 2019.

SOETHE, Paulo. “Situação histórica e concepções poéticas de Heinrich Böll”. In: Letras. Curitiba, n. 46, 1996.


Walkiria Oliveira Silva é professora da Universidade Federal de Uberlândia e pesquisa as relações entre Germanística e História na Alemanha, no início do século XX. Gosta muito de falar sobre literatura.

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